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100 páginas de Proust decidem os 7 volumes

No Caminho de Swann, de 1913, abre Em Busca do Tempo Perdido, e o tempo que você leva nele prevê as três mil páginas da obra.

Exemplar aberto de No Caminho de Swann ao lado de um cronômetro e de um lápis sobre a mesa.

O primeiro volume de Proust, de 1913

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Um cronômetro, um lápis, um exemplar de No Caminho de Swann aberto na página 1. Os três cabem numa mesa de cabeceira e resolvem uma dúvida que costuma sair cara: vale montar na estante os sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido?

A dúvida aparece em quase todo leitor que já ouviu falar do romance. A obra passa de três mil páginas na maioria das edições, ganhou fama de leitura impossível e virou piada de quem promete ler um dia, na aposentadoria ou numa ilha deserta.

A fama assusta, e o susto empurra o leitor para uma de duas saídas ruins. A primeira é comprar a coleção inteira num impulso e largar tudo na página quarenta. A segunda é nunca começar, porque três mil páginas parecem um compromisso de anos.

Existe uma terceira saída, e ela custa pouco. O primeiro volume saiu sozinho, seis anos antes do segundo, e funciona como amostra fiel do que vem adiante: a frase longa, o narrador que lembra, a lentidão que irrita alguns leitores e prende outros.

Em vez de decidir pela fama, o leitor decide pelo próprio relógio. Cronometra as cem primeiras páginas, anota quanto tempo levou e quantas vezes voltou a uma frase, e faz a conta para o resto da obra.

A conta é simples e honesta. Se cem páginas levam três horas, três mil levam cerca de noventa. Em sessões de meia hora por noite, dá perto de seis meses de leitura. O número deixa de ser assombração e vira agenda.

O cronômetro também mede uma variável mais difícil de pôr em número: a vontade de virar a página 101. Quem chega ao final da amostra querendo seguir tem o que precisa; quem chega aliviado ganhou a resposta sem gastar a coleção.

A seção I apresenta o livro de 1913 e as três partes em que ele se divide. A II reúne a ficha da obra inteira, volume por volume. A III ensina a cronometrar a amostra e a ler o resultado.

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I  O Livro em 3 Minutos

Uma amostra que saiu seis anos antes do resto

No Caminho de Swann, de Marcel Proust, chegou às livrarias de Paris em novembro de 1913 pela editora Bernard Grasset. Proust, nascido em 1871, pagou a edição do próprio bolso, porque outras casas tinham recusado o manuscrito.

A recusa mais famosa veio da Nouvelle Revue Française (a revista literária que deu origem à editora Gallimard). André Gide, um dos fundadores, folheou o manuscrito em 1912 e o devolveu. Pouco mais de um ano adiante, escreveu a Proust para se desculpar.

“A recusa deste livro continuará sendo o mais grave erro da NRF”, escreveu André Gide em carta a Marcel Proust, em janeiro de 1914. A Gallimard ficou com os direitos e lançou os volumes seguintes a partir de 1919.

O livro se divide em três partes. A primeira, Combray, traz a infância do narrador na cidadezinha do interior francês onde a família passava as férias. Ali fica o episódio mais citado da obra inteira.

O narrador, já adulto, molha no chá um pedaço de madeleine (bolinho francês em forma de concha). O gosto devolve de uma só vez a infância em Combray: as ruas, a igreja, o quarto da tia Léonie. Proust chama o fenômeno de memória involuntária, a lembrança que volta sem ter sido procurada.

Um amor dentro do livro

A segunda parte, Um Amor de Swann, muda de tempo e de tom. Conta, em terceira pessoa, o ciúme de Charles Swann, amigo da família do narrador, por Odette de Crécy, anos antes de o narrador nascer. Muitos leitores acham esta a parte mais fácil, e ela circula até como livro avulso.

A terceira, Nomes de Lugares: o Nome, é a mais curta. Volta à primeira pessoa e mostra o narrador menino apaixonado por Gilberte, filha de Swann e Odette, nos jardins dos Champs-Élysées, em Paris.

A abertura do livro dá a medida do ritmo. A primeira frase, “Durante muito tempo, costumava deitar-me cedo”, na tradução de Mario Quintana, puxa dezenas de páginas sobre o quarto escuro, o sono e o despertar antes de qualquer acontecimento.

Por que medir cem páginas, e não cinquenta? Porque a madeleine aparece dentro desse trecho, e é nela que a lentidão de Proust ganha sentido. Quem para antes julga o livro pela sala de espera.

O primeiro volume já traz o método inteiro: quem atravessa Combray atravessa os outros seis.

 
 

II  A Ficha

Sete volumes, catorze anos de lançamentos

A coleção levou catorze anos para sair inteira, e o autor não viu a última parte impressa.

Os dados principais da obra:

AutorMarcel Proust
Primeiro volume1913
Editora do volume 1Bernard Grasset
Volumes7
Último volume1927
Tradução clássicaMario Quintana e outros

A ordem dos sete, com o ano de lançamento na França, é esta: No Caminho de Swann, 1913; À Sombra das Moças em Flor, 1919; O Caminho de Guermantes, 1920 e 1921; Sodoma e Gomorra, 1921 e 1922; A Prisioneira, 1923; A Fugitiva, 1925; O Tempo Redescoberto, 1927.

O segundo volume ganhou o Prêmio Goncourt, o prêmio literário mais conhecido da França, em 1919. A vitória tirou Proust da posição de autor que bancava a própria edição e o pôs no centro da literatura francesa.

Proust morreu em novembro de 1922, aos 51 anos, antes de ver os três últimos volumes impressos. O irmão, o médico Robert Proust, e o editor Jacques Rivière, da Nouvelle Revue Française, prepararam os manuscritos para publicação.

No Brasil, a Editora Globo, de Porto Alegre, encomendou a tradução a um time de escritores a partir dos anos 1940. Mario Quintana traduziu No Caminho de Swann e os primeiros volumes; Manuel Bandeira trabalhou em A Prisioneira com Lourdes Sousa de Alencar; Carlos Drummond de Andrade assinou A Fugitiva.

A conta exata das páginas varia conforme a editora, o tamanho da letra e a presença de notas. Nenhum número único vale para todas as edições; a referência segura é o total impresso no exemplar que você tem na mão.

O que se mantém em qualquer edição é a ordem de leitura, e ela importa. Os volumes contam a vida de um só narrador, e personagens apresentados em Combray voltam centenas de páginas adiante, mais velhos, mudados ou arruinados.

O Tempo Redescoberto responde à pergunta que o primeiro volume abre. O narrador passa a obra inteira adiando o livro que quer escrever; no último volume ele entende que a matéria do livro é a própria vida que lembrou, e decide escrevê-lo.

Para o leitor que mede, a ficha serve de calendário. São sete etapas com pausa natural entre elas, porque cada volume se lê como bloco próprio, com começo e desfecho.

 

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III  Já Está no Seu Plano

O cronômetro decide a estante

No Caminho de Swann já está no seu plano se você quer ler Proust e não sabe se tem fôlego para a obra inteira. Antes de comprar os sete volumes, compre ou pegue emprestado só o primeiro e faça a medição.

A medição em cinco passos:

1. Separe o exemplar, um lápis e o cronômetro do celular. Deixe o aparelho virado para baixo, longe da mão.

2. Leia em sessões de 25 minutos, sem pular frase. Anote no canto da página a hora de início e de parada de cada sessão.

3. Marque com um traço na margem cada frase que você precisou reler para entender.

4. Pare na página 100, mesmo no meio de um parágrafo, e some o tempo das sessões.

5. Multiplique o total por 30. O resultado é a estimativa, em horas, para as três mil páginas da obra.

O passo 3 mede a dificuldade real. A frase longa de Proust carrega orações subordinadas (frases encaixadas dentro da principal) e pede atenção ao sujeito, que às vezes aparece só no meio do período. Poucos traços indicam que o ritmo vai acelerar; muitos indicam que a tradução ou a hora do dia atrapalham.

Até três horas nas cem páginas: o ritmo sustenta a obra inteira em menos de um ano, com meia hora por noite. A estante pode receber os sete.

Entre três e cinco horas: o fôlego existe, mas pede plano. Compre o segundo volume só ao terminar o primeiro, e decida o terceiro pela mesma conta.

Acima de cinco horas, ou com mais de vinte traços na margem: troque a tradução antes de desistir do autor, ou pule para Um Amor de Swann, a segunda parte do volume, e meça outra vez.

A segunda variável vale tanto quanto o relógio. Se na página 100 você quer saber o que acontece com Swann e Odette, o tempo gasto não pesa; se a página 100 chega como alívio, a coleção fica na loja e o primeiro volume basta como leitura completa.

Teste hoje: abra No Caminho de Swann, ou a amostra gratuita da loja digital, ligue o cronômetro e leia 10 páginas sem o celular por perto. Anote os minutos e multiplique por 300: o resultado, em minutos, é o tempo da obra inteira. Abaixo de 6.000 minutos, ou 100 horas, os sete volumes cabem no seu ano.

“Quantos minutos levaram as suas dez primeiras páginas de Proust?”

 
 

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