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A folha de rosto revela qual diário de Anne Frank você leva

Anne Frank reescreveu o próprio diário, o pai cortou trechos em 1947 e a edição de 1991 devolveu o texto. A tradução brasileira avisa qual usou.

Diário de capa xadrez vermelha e branca aberto sobre uma mesa.

A versão do diário mora na folha de rosto

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Um caderno de autógrafos com capa xadrez vermelha e branca, dois cadernos escolares, um maço de folhas avulsas de papel colorido. Os três guardam o mesmo diário, escrito por Anne Frank num esconderijo de Amsterdã entre junho de 1942 e agosto de 1944.

O caderno xadrez foi presente de aniversário. Anne fez 13 anos em 12 de junho de 1942 e começou a escrever no mesmo dia, em cartas endereçadas a uma amiga imaginária chamada Kitty. Três semanas depois, a família se escondeu no anexo dos fundos do escritório do pai.

O anexo ficava na Prinsengracht, um dos canais do centro da cidade, atrás de uma estante giratória. Oito pessoas viveram ali por pouco mais de dois anos, até a polícia alemã entrar no prédio em 4 de agosto de 1944.

As folhas avulsas são a parte menos conhecida da história. Em 1944, Anne decidiu transformar o diário num livro. Começou a reescrever as entradas antigas em papel solto, cortando, juntando e trocando os nomes dos moradores do esconderijo.

Ela não terminou a revisão. Dos oito escondidos, só o pai, Otto Frank, voltou dos campos. Miep Gies, funcionária do escritório que ajudou a família durante o esconderijo, tinha recolhido os papéis do chão do anexo e os entregou a ele no verão de 1945.

Otto montou a primeira edição com as duas camadas do texto e tirou trechos que achou íntimos demais. Esse livro de 1947 correu o mundo por quatro décadas. Só em 1991 uma nova edição, aprovada pela fundação que ele criou, devolveu boa parte das páginas cortadas.

Nas livrarias e nos sebos brasileiros, as duas famílias de texto dividem a mesma prateleira. A capa quase sempre traz a mesma foto da menina sorrindo, e a diferença entre elas chega a dezenas de páginas.

A pista está nas primeiras folhas do livro. Antes da conferência, vale entender o que existe em cada camada do diário e por que o leitor de hoje tem acesso a mais texto do que o leitor de 1950.

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I  O Livro em 3 Minutos

Duas Annes no mesmo caderno

O Diário de Anne Frank é o registro escrito por Annelies Marie Frank, nascida em Frankfurt em 1929, durante os 25 meses em que ela viveu escondida dos nazistas em Amsterdã. A família tinha saído da Alemanha em 1933 e se instalado na Holanda, ocupada pelo exército alemão em maio de 1940.

O texto existe em camadas porque a própria autora o revisou. Os pesquisadores chamam de versão A o diário original, escrito no calor de cada dia, e de versão B a reescrita que Anne começou em 1944, já pensando num leitor de fora.

O rádio de Londres

A decisão de reescrever tem data. Em 28 de março de 1944, Gerrit Bolkestein, ministro da Educação do governo holandês no exílio, pediu pela rádio Oranje, emissora transmitida de Londres, que os holandeses guardassem diários e cartas do período da ocupação para um arquivo depois da guerra.

Anne ouviu o pedido no rádio do anexo. Nas semanas seguintes, ela escolheu um título para o futuro livro, Het Achterhuis (O Anexo dos Fundos), e inventou pseudônimos para todos os moradores, ela mesma inclusive.

A versão B corta repetições, junta entradas do mesmo dia e reescreve passagens da Anne de 13 anos com a cabeça da Anne de 14. Ela cobre o período de junho de 1942 a março de 1944. A partir daí, só existe a versão A.

O que o pai cortou

Otto Frank juntou as duas versões e criou uma terceira, que os pesquisadores chamam de versão C. A editora Contact, de Amsterdã, publicou o livro em 25 de junho de 1947, com o título escolhido pela filha.

Nessa montagem, ele deixou de fora as passagens sobre a descoberta do próprio corpo, sobre a menstruação e as críticas mais duras de Anne à mãe, Edith Frank. Também atenuou comentários sobre o casamento dos pais e sobre os outros moradores do esconderijo.

A Anne mais conhecida do mundo é uma montagem feita pelo pai, a partir de dois textos da filha.

O corte não esconde o essencial da história. A rotina do esconderijo, o medo dos bombardeios, o namoro com Peter van Pels e a vontade de virar escritora estão todos na edição de 1947.

A frase mais lembrada do diário sobreviveu a todas as versões. Em 5 de abril de 1944, Anne escreveu: “Quero continuar vivendo depois da minha morte!”. Ela não sobreviveu à guerra: morreu de tifo no campo de Bergen-Belsen, na Alemanha, no começo de 1945, poucas semanas antes da libertação do campo pelos britânicos.

 
 

II  A Ficha

A versão de cada prateleira

A edição definitiva de 1991 é a única que soma o diário original, a reescrita de Anne e as páginas que o pai deixou de fora.

A ficha do livro:

AutoraAnne Frank
Escrita1942 a 1944
Primeira edição1947, Amsterdã
Título originalHet Achterhuis
Edição definitiva1991
OrganizaçãoMirjam Pressler
Preçovaria por edição

A ficha separa as três fases do texto. Cada uma deixou exemplares diferentes nas livrarias brasileiras.

A edição crítica de 1986

Otto Frank deixou os manuscritos em testamento ao Estado holandês e não viveu para ver o passo seguinte: ele morreu na Suíça em 1980. O Instituto Holandês de Documentação de Guerra, o NIOD, recebeu os papéis e publicou em 1986 uma edição crítica com as versões A, B e C impressas lado a lado.

O mesmo volume trouxe uma perícia de caligrafia, tinta e papel, feita pelo laboratório forense do Ministério da Justiça holandês, que confirmou a autoria de Anne. A edição foi pensada para pesquisadores e saiu grande demais para o leitor comum.

A definitiva de 1991

Para o leitor comum, o Fundo Anne Frank, fundação criada por Otto em Basileia, na Suíça, e dona dos direitos do diário, encomendou uma nova montagem à tradutora alemã Mirjam Pressler. Ela partiu da versão B, completou com a A onde Anne não tinha reescrito e repôs os trechos cortados em 1947.

O resultado saiu na Holanda em 1991 e ganhou tradução inglesa em 1995, por Susan Massotty. A editora americana Doubleday, no texto da contracapa daquela edição, calculou que o livro tinha cerca de 30% a mais de material do que a montagem de Otto.

O que aparece na página de créditos

No Brasil, a Editora Record publica a edição definitiva na tradução de Ivanir Alves Calado. A capa costuma trazer a expressão “edição definitiva”, e a página de créditos repete a informação ao lado do nome da organizadora, Mirjam Pressler.

As traduções anteriores a 1991 seguem a montagem de Otto e circulam em sebos, bancas e coleções antigas. A pista é a ausência das duas referências: nenhuma menção a Pressler, nenhuma menção a 1991.

O preço de capa não indica a versão. Exemplares baratos de sebo podem ser a definitiva, e reimpressões novas de catálogo antigo podem trazer o texto de 1947 com capa moderna.

 

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III  Já Está no Seu Plano

A conferência de pé, no sebo

A conferência já está no seu plano se você leu o diário na escola, quer dar o livro a um adolescente ou está montando uma estante de memórias da Segunda Guerra. Ela pede só o exemplar na mão e dois minutos.

O roteiro, na frente da prateleira:

1. Abra o livro na folha de rosto, a página com título e autora logo depois da capa.

2. Procure as palavras “edição definitiva” ou o nome de Mirjam Pressler.

3. Vire a folha e leia o ano do copyright e quem assina a tradução.

4. Procure no sumário ou na introdução uma nota sobre as versões A, B e C.

5. Sem nenhuma dessas pistas, trate o exemplar como a montagem de 1947.

Por que cada passo importa

O passo 1 resolve a maior parte dos casos. Desde 1991, a editora faz questão de anunciar a edição definitiva na abertura do livro, porque é o argumento de venda da nova montagem.

O passo 2 separa a definitiva das reimpressões antigas. O nome de Pressler aparece como organizadora, e sem ele a tradução quase certamente partiu da montagem de Otto.

O passo 3 confirma a data. Um copyright anterior a 1991 entrega a versão de 1947, mesmo que a capa seja nova. Em 1998 surgiram cinco páginas que Otto tinha guardado à parte, e as edições impressas a partir de 2001 costumam incluí-las.

O passo 4 vale para quem quer entender o texto, não só comprar. Boas edições explicam no começo de onde vem cada trecho, e essa nota já mostra o cuidado da tradução.

Duas palavras na folha de rosto dizem se você está levando a Anne inteira ou a montagem de 1947.

Para quem já tem o livro

Quem leu a montagem antiga não leu um livro falso. A história, a voz e o desfecho são os mesmos, e a montagem de Otto continua sendo um retrato fiel da rotina no anexo.

A diferença está na menina. A edição definitiva mostra uma Anne mais irritada com a mãe, mais curiosa sobre o próprio corpo e mais consciente de que escrevia para ser lida, o que muda a leitura do relato inteiro.

Teste hoje: pegue o seu exemplar ou o da biblioteca mais perto, abra na folha de rosto e procure Mirjam Pressler nos créditos. Depois abra na entrada de 24 de março de 1944. Se o texto daquele dia traz Anne descrevendo a própria curiosidade sobre o corpo, você tem a definitiva; se o trecho não aparece, você tem a montagem de 1947.

 
 
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