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A página de créditos denuncia o Christie de 1939 com capa nova

Antes da HarperCollins, o romance de Agatha Christie circulava no Brasil como O Caso dos Dez Negrinhos. Duas linhas evitam a compra repetida.

Exemplar antigo de romance policial aberto na página de créditos.

O título original mora nos créditos

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Um disco de gramofone, dez estatuetas de porcelana, uma cantiga infantil emoldurada na parede. Os três esperam os hóspedes na casa da ilha inventada por Agatha Christie, e os três marcam o tempo do romance que ela lançou na Inglaterra em novembro de 1939.

A trama cabe numa linha. Dez desconhecidos aceitam um convite para passar uns dias numa ilha da costa de Devon, no sudoeste inglês. O anfitrião não aparece. Na primeira noite, o disco acusa cada um deles de um crime antigo que a justiça nunca alcançou.

Daí em diante, os convidados somem um a um, na ordem dos versos da cantiga, e uma estatueta desaparece da mesa da sala a cada perda. A ilha não tem barco, o mar está bravo e ninguém mais pisa ali. O culpado só pode estar entre os dez.

O livro virou o romance de mistério mais vendido da história, segundo a Agatha Christie Limited, empresa que administra a obra da autora. Nas livrarias brasileiras de hoje, ele aparece com capa da HarperCollins e o título E Não Sobrou Nenhum.

Nas prateleiras de sebo, o mesmo texto mora com outra lombada. Durante décadas, as edições brasileiras chamaram o livro de O Caso dos Dez Negrinhos, tradução direta do título britânico de 1939, tirado de uma cantiga com termo racista.

O leitor que cresceu com a lombada antiga e o leitor que conheceu a capa nova podem estar falando do mesmo romance sem perceber. Quem tem um exemplar velho em casa e compra o novo no impulso paga duas vezes pela mesma história.

A conferência leva menos de um minuto e acontece dentro do próprio livro. A página de créditos, logo depois da folha de rosto, guarda o título original em inglês e o ano do copyright, e as duas linhas bastam para reconhecer o romance.

Antes da conferência, vale saber por que o livro trocou de nome três vezes em dois países, e o que o enredo guarda de tão bem montado a ponto de ser reimpresso desde a Segunda Guerra.

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I  O Livro em 3 Minutos

Dez convidados e nenhum anfitrião

Agatha Christie publicou o romance pela Collins Crime Club, em Londres, no dia 6 de novembro de 1939, dois meses depois do começo da Segunda Guerra Mundial. Ela já tinha Hercule Poirot e Miss Marple na estante, e decidiu escrever um livro sem detetive nenhum.

O título britânico repetia o nome da cantiga infantil que estrutura a trama, e a cantiga usava uma palavra racista para os dez bonequinhos. A ilha também levava esse nome no texto de 1939.

Nos Estados Unidos, a Dodd, Mead lançou o livro no começo de 1940 com o título And Then There Were None (E então não sobrou nenhum), tirado do último verso da cantiga. A editora americana trocou também a ilha e os bonequinhos, que viraram índios.

Os dez da lista

Os convidados formam um retrato da classe média inglesa do entreguerras. Há um juiz aposentado, Lawrence Wargrave, um médico, Edward Armstrong, uma governanta, Vera Claythorne, um aventureiro, Philip Lombard, e um general reformado, John Macarthur.

Completam a lista uma senhora religiosa, Emily Brent, um rapaz rico e imprudente, Anthony Marston, um ex-policial, William Blore, e o casal de empregados da casa, Thomas e Ethel Rogers. Cada um carrega a culpa por um caso passado.

O convite chega assinado por U. N. Owen. Lido em voz alta em inglês, o nome soa como unknown (desconhecido), e é a primeira piada da autora sobre quem manda na ilha.

A ilha do livro tem modelo provável. A Burgh Island, ilhota da costa de Devon com um hotel art déco (estilo decorativo dos anos 1920 e 1930), costuma ser apontada como inspiração, porque Christie se hospedou ali e a maré isola o lugar do continente duas vezes por dia.

Por que o enredo funciona

A cantiga pendurada em cada quarto anuncia o próximo passo. O leitor sabe como o próximo hóspede vai cair e mesmo assim não adivinha quem é o responsável, porque a suspeita circula de um personagem para outro a cada capítulo.

Christie fecha todas as saídas. Não há barco, não há ninguém escondido na ilha, e a polícia que chega depois encontra só os dez corpos e nenhuma explicação. O mistério se resolve num epílogo: uma confissão dentro de uma garrafa, recolhida por um barco de pesca.

A cantiga entrega a ordem dos acontecimentos e esconde o único dado que importa.

Quem escreveu a confissão foi o juiz Wargrave, que fingiu a própria morte na metade da série para continuar agindo. A autora contou na Autobiografia, de 1977, que considerava o livro o mais difícil de planejar entre todos os seus.

 
 

II  A Ficha

Três títulos para um texto

O romance é um só desde 1939: muda a capa, a lombada e o título, e a página de créditos continua igual.

A ficha do livro:

AutoraAgatha Christie
Lançamentonovembro de 1939
Editora originalCollins Crime Club
Título original atualAnd Then There Were None
Título antigo no BrasilO Caso dos Dez Negrinhos
Título atual no BrasilE Não Sobrou Nenhum
Preçovaria por edição

A ficha resume a troca de nomes. A história dela explica por que o mesmo livro aparece no sebo com duas lombadas diferentes.

A troca na Inglaterra

O título britânico com a palavra racista seguiu nas edições inglesas por décadas. A troca definitiva para And Then There Were None no Reino Unido só aconteceu em 1985, quando a editora alinhou o nome ao americano.

Os bonequinhos da cantiga também mudaram. As edições atuais trazem dez soldadinhos, e a ilha se chama Soldier Island (Ilha do Soldado). O enredo, as falas e a confissão final continuam os mesmos.

A troca no Brasil

Aqui, o livro circulou por décadas como O Caso dos Dez Negrinhos, traduzido do título britânico antigo e publicado por mais de uma editora. Muitos exemplares dessa fase ainda giram por sebos e estantes de família.

A HarperCollins Brasil assumiu os livros de Christie na década de 2010 e adotou E Não Sobrou Nenhum, versão do título americano. A tradução mudou, mas o romance traduzido é o mesmo, capítulo por capítulo.

O que olhar nos créditos

A página de créditos fica no verso da folha de rosto, nas primeiras páginas do livro. Ela traz o título original, o ano do copyright e o nome do tradutor.

Num exemplar antigo, o título original costuma aparecer com o nome britânico de 1939. Num exemplar novo, aparece And Then There Were None. Nos dois, o copyright registra 1939, o ano que identifica o romance.

O nome do tradutor separa as traduções. Duas edições com tradutores diferentes trazem o mesmo enredo em frases diferentes, e só quem quer comparar as versões tem motivo para guardar as duas.

O ISBN (número internacional que identifica cada edição) ajuda pouco nesta busca. Cada editora e cada reimpressão recebe um número próprio, então dois ISBN diferentes podem esconder o mesmo romance.

 

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III  Já Está no Seu Plano

Um minuto no sebo

A conferência já está no seu plano se você frequenta sebo, herdou livros de família ou tem estante com romances policiais antigos. Ela pede só o exemplar na mão e um minuto de atenção.

O roteiro, de pé, na frente da prateleira:

1. Abra o livro na página logo depois da folha de rosto.

2. Procure a linha do título original e anote o nome em inglês.

3. Procure o ano do copyright e veja se marca 1939.

4. Leia o nome do tradutor e compare com o da edição que você já tem.

5. Se o título original e o ano batem com o seu exemplar, devolva o livro à prateleira.

O passo 1 parece óbvio, mas muita gente procura o título original na contracapa, onde ele quase nunca aparece. A contracapa vende o livro; a página de créditos o identifica.

O passo 2 resolve a maior parte dos casos. Os dois nomes em inglês, o antigo e o atual, apontam para o mesmo livro, e não existe outro romance de Christie com dez convidados numa ilha.

O passo 3 protege contra um engano comum. Christie também escreveu uma peça de teatro com o mesmo enredo, em 1943, com final diferente, e algumas coletâneas reúnem o texto da peça.

O passo 4 serve para quem coleciona traduções. Se o tradutor é outro, o livro na mão é a mesma história contada com outras escolhas de palavra, e a compra só faz sentido para quem quer comparar.

Duas linhas na página de créditos dizem se o livro da prateleira já mora na sua estante.

Vale guardar o resultado no próprio exemplar. Um lápis na página de créditos, com o título em português da outra edição, poupa a próxima pessoa que pegar o livro emprestado da mesma dúvida na livraria.

A mesma conferência serve para outros títulos da autora que trocaram de nome entre editoras brasileiras. A página de créditos sempre guarda o nome original, e ele não muda com a capa.

Teste hoje: pegue três romances policiais da sua estante, abra cada um na página de créditos e anote título original e ano. Conte quantos têm um título em português diferente do que você lembrava.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quem compôs a cantiga infantil dos dez soldadinhos, usada por Agatha Christie como relógio do romance?

 
 
Quiz da edição

Segundo a edição, quem escreveu a confissão guardada dentro da garrafa que resolve o mistério dos dez hóspedes?

AO ex-policial William Blore
BO juiz Lawrence Wargrave
CO médico Edward Armstrong
DO aventureiro Philip Lombard

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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