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As mil páginas de Ulisses e a conta por página lida
O original de 1922 está livre de direitos e a tradução de Caetano Galindo passa de mil páginas: a ficha divide o preço pelo que o leitor termina.
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Mil páginas para um único dia de 1904
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M il cento e doze páginas, dezoito episódios, dezoito horas de um único dia. Os três números descrevem o mesmo volume: a tradução de Caetano Galindo para Ulysses, de James Joyce, publicada pela Companhia das Letras em 2012 e ainda hoje o tijolo mais pesado da mesa de clássicos estrangeiros.
O romance saiu em Paris em fevereiro de 1922, editado por Sylvia Beach na livraria Shakespeare and Company, numa tiragem de mil exemplares numerados. James Joyce trabalhou nele por sete anos e escolheu a data de publicação com cuidado: o dia do próprio aniversário de quarenta anos.
Joyce parou de escrever em 1941, e pela lei brasileira de direito autoral a obra dele entrou em domínio público setenta anos depois. O texto em inglês, portanto, pode ser baixado hoje sem pagar nada e sem zona cinzenta nenhuma. A tradução para o português é outra história jurídica: cada frase de Galindo é obra nova, com direitos próprios, e é ela que carrega a etiqueta na livraria.
Por trás da etiqueta existe uma reputação que nenhuma editora imprime na quarta capa. Ulisses é o romance que as pessoas compram, começam e param, geralmente perto do episódio nove, quando Stephen Dedalus passa vinte e tantas páginas discutindo Shakespeare numa biblioteca de Dublin. Livreiros conhecem o cliente que volta em janeiro para comprar a mesma edição que abandonou em agosto.
Se o abandono na metade é o padrão que o próprio livro carrega, a conta honesta muda de denominador. Deixa de ser preço dividido por páginas impressas e passa a ser preço dividido pelas páginas que o leitor realmente termina. Um volume de R$ 129,90 sai por doze centavos a página quando lido inteiro, e por quase o dobro quando fecha na metade.
A conta fica mais interessante ainda porque existe um caminho gratuito para as mesmas mil páginas, e um caminho pago que não é o livro, é o mapa dele. Antes de fazer as duas contas, vale saber o que acontece dentro desse dia de junho de 1904, porque a fama de dificuldade vem da forma, nunca do enredo.
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I O Livro em 3 Minutos
Dezoito horas em Dublin contadas de dezoito jeitos
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O enredo cabe num parágrafo. Em 16 de junho de 1904, Leopold Bloom, agente de publicidade de trinta e oito anos, sai de casa em Dublin, trabalha, almoça, vai a um enterro, discute com um nacionalista num bar, passa a noite num bordel e volta para a cama onde a mulher, Molly, passou a tarde com outro homem.
Em paralelo corre Stephen Dedalus, jovem professor que ainda carrega a morte recente da mãe e a recusa de ter rezado ao lado dela. Os dois cruzam a cidade sem se encontrar durante quase quinhentas páginas, e o livro inteiro é a preparação do encontro banal entre um homem sem filho vivo e um rapaz sem pai que preste.
O esqueleto vem da Odisseia. Cada episódio corresponde a um trecho da viagem de Ulisses, e a piada estrutural de Joyce é que a odisseia de vinte anos vira um passeio de dezoito horas dentro de uma cidade pequena. Bloom é o herói, o hotel é a ilha, o bonde é o mar.
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A dificuldade de Ulisses não está no enredo, está na decisão de Joyce de escrever cada um dos dezoito episódios numa técnica diferente. O leitor não aprende a ler o livro uma vez, aprende dezoito vezes.
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O episódio da maternidade imita a evolução da prosa inglesa do latim medieval até a gíria de rua. O do bordel vem em forma de peça de teatro, com rubricas e alucinações. O penúltimo é um interrogatório em perguntas e respostas, com respostas de precisão científica sobre a pressão da água na torneira. O último são oito frases sem pontuação, na cabeça de Molly, e fecha o romance numa palavra repetida.
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Yes I said yes I will Yes.
James Joyce, Ulysses, 1922
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A frase final chega depois de mais de mil páginas de recusa, ironia e adiamento, e é a única afirmação limpa do livro. Quem chega até ela costuma dizer que as oitocentas páginas anteriores mudaram de sentido nas últimas cinco linhas.
O que o romance entrega: a reconstrução mais completa de um dia comum já tentada em prosa, humor de rua muito maior do que a fama sugere, e a sensação rara de estar dentro da cabeça de gente comum enquanto ela pensa em comida, dívida e sexo na mesma frase.
O que ele cobra: atenção alta em pelo menos quatro episódios, tolerância para páginas onde o sentido só se forma depois, e alguma disposição para consultar um guia. As três exigências são exatamente o que a próxima conta tenta transformar em reais e em noites de leitura.
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II A Ficha
Doze centavos a página inteira, vinte e três na metade
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A brochura de Galindo custa R$ 129,90 e tem 1.112 páginas, o que dá doze centavos por página. Fechar o livro na metade dobra a conta para vinte e três centavos por página lida.
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As etiquetas primeiro, com a consulta feita em 03/09/2026 nas grandes livrarias e nos portais públicos:
| Project Gutenberg, original em inglês de 1922 | R$ 0,00 | | Audiolivro dentro de assinatura mensal já paga | R$ 19,90 por mês | | Ebook da tradução brasileira | R$ 49,90 | | Guia de leitura episódio a episódio | R$ 69,90 | | Brochura da tradução, 1.112 páginas | R$ 129,90 | | Edição em capa dura | R$ 199,00 |
O tamanho decide mais do que o preço. São cerca de 265 mil palavras, quatro vezes um romance brasileiro médio. A 150 palavras por minuto, ritmo realista para prosa densa, dá cerca de 29 horas e meia de leitura corrida. Trinta páginas por noite fecham o livro em 37 noites, e quinze páginas por noite estendem para 74 noites, quase dois meses e meio.
Agora a conta por página, feita nos três cenários que descrevem quase todo comprador de Ulisses:
| Leitura completa, 1.112 páginas | R$ 0,12 por página | | Parada no episódio nove, cerca de 550 páginas | R$ 0,23 por página | | Parada no primeiro fim de semana, cerca de 100 páginas | R$ 1,30 por página |
A terceira linha é o preço real que a maioria das estantes brasileiras paga por Ulisses. Não porque o comprador seja preguiçoso, mas porque comprou o volume sem plano de leitura e tentou encaixá-lo em quinze minutos antes de dormir, exatamente o horário em que o episódio nove é impossível.
Existe uma linha que muda o desenho inteiro da conta. Caetano Galindo publicou em 2016, pela Companhia das Letras, o volume Sim, eu digo sim, uma visita guiada que percorre os dezoito episódios explicando o que cada um faz e por quê. Ele custa R$ 69,90 e some da conta quando o leitor termina o romance, porque o guia é o que converte as 550 páginas travadas nas 1.112 completas.
O que cada porta entrega, em ordem de utilidade real:
| Original no Gutenberg | o texto de 1922 completo, de graça, para quem lê inglês literário | | Audiolivro | resolve os episódios de fluxo de consciência, que foram escritos para o ouvido | | Ebook da tradução | busca por personagem, dicionário embutido, peso zero na mochila | | Brochura de Galindo | notas, cabeçalhos de episódio e margem para anotar | | Guia de leitura | destrava os três episódios onde a maioria fecha o livro |
Somar guia e brochura dá R$ 199,80, mais que a capa dura sozinha. Parece caro até dividir pelo resultado: R$ 199,80 por um livro terminado sai por dezoito centavos a página, contra R$ 1,30 a página de uma brochura barata parada na estante desde agosto.
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A conta da ficha: Ulisses não é caro por página, é caro por página abandonada. Quem compra só o volume paga barato e arrisca a metade; quem compra volume mais guia paga mais na etiqueta e costuma sair com o livro inteiro nas mãos.
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