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Crime e Castigo, e o preço da tradução direta
O clássico de Dostoiévski ocupa a prateleira em duas etiquetas que variam quase quatro vezes, e a ficha diz o que muda dentro do livro.
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Duas traduções do mesmo romance, lado a lado
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Uma busca pelo título numa livraria on-line devolve quarenta resultados na primeira página. A etiqueta mais barata pede R$ 25. A mais cara, com a mesma foto de capa cinzenta na miniatura, pede R$ 95.
A diferença entre as duas etiquetas não está no acabamento do papel. Está no texto. Uma delas foi traduzida direto do russo por um tradutor que assina a ficha técnica. A outra chegou ao português depois de passar pelo francês.
Tradução indireta tem nome técnico e efeito prático. O romance atravessou duas cabeças antes da nossa: um tradutor francês leu o russo e escreveu em francês, e um tradutor brasileiro leu esse francês e escreveu em português.
Cada passagem apara alguma coisa. O francês do período gostava de frase limpa, então cortava a repetição que o autor usa de propósito, arrumava a sintaxe torta e explicava no meio da linha o que a nota de rodapé deveria explicar embaixo.
O título é Crime e Castigo, de Dostoiévski, publicado em 1866 em doze fascículos mensais numa revista russa. Está no catálogo brasileiro há quase um século, com edição nova saindo a cada temporada.
O que sobra da viagem dá para medir na prateleira, sem ler uma linha: contagem de páginas, número de notas de rodapé, palavras de texto corrido e o preço da hora de leitura em cada versão.
Uma pergunta organiza a compra. Os R$ 70 de diferença compram tradução melhor, ou compram papel mais grosso e nome de editora na lombada?
Tem uma segunda conta, e ela não é de dinheiro. São quase 600 páginas, perto de catorze horas de leitura. A versão errada não pesa no caixa, pesa na página 80, quando o leitor fecha o volume e não abre mais.
Antes de dividir etiqueta, porém, vem o miolo. Preço por palavra não decide nada se a história não segurar catorze horas, e esta segura com um mecanismo que cabe em três frases.
A história primeiro. A régua entra depois.
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I O Livro em 3 Minutos
O cubículo de seis passos e o juiz que espera
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O miolo é romance psicológico montado sobre estrutura de policial invertido. O narrador é onisciente, mas cola tanto na cabeça do protagonista que o leitor passa as 600 páginas dentro de uma febre alheia.
A cena que dispara o livro cabe em cinco linhas: um ex-estudante de direito, sem dinheiro para a mensalidade e devendo aluguel, sobe quatro lances de escada, empenha um relógio de prata na casa de uma velha agiota e volta dias depois com um machado escondido sob o casaco.
Ele não é ladrão. É autor de um artigo publicado numa revista, defendendo que uma minoria de homens extraordinários tem licença para atravessar a lei quando a ideia vale mais que a regra.
O plano dura menos que a tarde. A irmã da agiota entra em casa na hora errada, o dinheiro roubado é escondido debaixo de uma pedra num pátio e nunca é gastado, e o ex-estudante passa três dias de cama, com febre, antes de a polícia sequer olhar para ele.
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O livro resolve o enigma na página 90. As outras 500 não perguntam quem foi. Perguntam quanto tempo um homem aguenta saber.
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O cerco fica a cargo de Porfiri Pietróvitch, juiz de instrução. Ele nunca apresenta prova, nunca faz acusação formal e nunca perde a cortesia. Conduz três conversas ao longo do romance, e cada uma aperta um pouco mais o círculo.
Do outro lado está Sônia, a moça que se prostitui para sustentar os irmãos e o pai bêbado. É para ela que a confissão acaba indo, e é ela que lê em voz alta a passagem da ressurreição de Lázaro, num quarto emprestado.
A escrita é febril e falada. Capítulos curtos, diálogos de páginas inteiras, pensamento e fala grudados na mesma frase, e a São Petersburgo de julho entrando como personagem: calor parado, escada estreita, cheiro de tinta e de taberna.
O que ele entrega em uma linha: tensão que não depende de mistério, personagens que discutem ideia com a raiva de quem discute dinheiro e uma cidade que aperta o peito. O que ele não entrega: leitura leve, nome fácil de guardar e desfecho moral confortável.
A crítica de hoje tem endereço certo. O epílogo resolve na Sibéria, em vinte páginas, a virada que o romance levou 500 para preparar, e a segunda metade repete debate que a primeira já tinha vencido. Os dois defeitos não derrubam o livro, mas explicam a desistência na parte quatro.
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II A Ficha
As oitenta páginas que a etiqueta barata não tem
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592 páginas na tradução feita direto do russo e 512 na que veio pelo francês, quase 400 notas de rodapé contra nenhuma, e duas etiquetas para o mesmo romance: R$ 25 e R$ 95. A ficha divide as duas pelo texto que cada uma entrega.
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O preço primeiro, com as etiquetas à vista. A edição de bolso com tradução indireta circula de R$ 20 a R$ 35, a tradução direta do russo em brochura grande fica entre R$ 80 e R$ 110, o usado aparece de R$ 15 a R$ 40 e o audiolivro entra pelas assinaturas de R$ 20 a R$ 30 por mês, consultado em 15/08/2026.
As páginas depois. São 592 na edição traduzida direto do russo, com notas do tradutor no rodapé e posfácio no fim, contra 512 na indireta, que vai do primeiro capítulo à última linha sem uma nota sequer.
A conta de palavras sai da própria página, e ela contraria a contagem de páginas. A edição barata usa corpo de letra menor e margem estreita, e aperta perto de 360 palavras por página. A cara trabalha com a página mais aberta, na casa das 340.
Multiplicado, o bolso dá cerca de 185 mil palavras e a tradução direta dá cerca de 200 mil. São 15 mil palavras de diferença, o tamanho de uma novela curta, dentro do mesmo romance.
Falta dizer de onde vêm as 15 mil. Não é texto inventado: é a repetição que o autor usa de propósito, a frase truncada de quem fala com pressa e o palavrão de rua que a passagem pelo francês trocou por sinônimo educado.
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O homem se habitua a tudo, o canalha!
Fiódor Dostoiévski, Crime e Castigo, 1866
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O audiolivro confere a conta por outro caminho. A narração integral em português passa das vinte e duas horas, e a 145 palavras por minuto vinte e três horas dão perto de 200 mil palavras.
Agora a divisão que interessa. R$ 25 divididos por 185 mil palavras dão R$ 0,14 por mil palavras lidas, e os R$ 95 da tradução direta dão R$ 0,48 pelas mesmas mil.
A régua de comparação é a brochura média da prateleira de ficção, perto de 288 páginas, cerca de 85 mil palavras e R$ 55 na etiqueta, o que dá R$ 0,65 por mil. A edição de bolso sai 78% abaixo dessa média, e a tradução direta sai 26% abaixo, com etiqueta quase quatro vezes maior.
O preço da hora repete o desenho. A 240 palavras por minuto, o bolso pede 12 horas e 50 minutos e sai por R$ 1,95 a hora. A tradução direta pede 13 horas e 50 e sai por R$ 6,90.
As notas de rodapé entram na conta do tempo, não na do preço. São quase 400, uma a cada página e meia, e vinte segundos em cada uma somam mais de duas horas. Com elas no relógio, a hora da edição cara cai para perto de R$ 6,00.
A régua da ficha: as duas são baratas por palavra, e os R$ 70 de diferença compram 15 mil palavras que o autor escreveu e quase 400 notas que explicam a cidade, o rublo e o santo do calendário. Papel melhor não compram.
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