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Dom Quixote tem 2 partes, e o sumário diz qual você leva
Cervantes publicou a primeira parte em 1605 e a segunda em 1615. Muita edição brasileira entrega só uma delas.
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As 2 partes de Dom Quixote na estante
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Um sumário com 52 capítulos, outro com 74, uma lombada que diz só “Dom Quixote”. As três peças cabem na mesma prateleira de livraria, e só as duas primeiras dizem o que vai para casa.
Miguel de Cervantes Saavedra publicou o romance em duas etapas. A primeira parte saiu em Madri em 1605, impressa na oficina de Juan de la Cuesta. A segunda chegou dez anos depois, em 1615, quando o autor já passava dos 60 anos.
Entre uma e outra, o cavaleiro magro de Cervantes virou figura conhecida na Espanha inteira. Apareceu fantasiado em festas populares, virou assunto de conversa nas estalagens e chegou a ganhar uma continuação falsa, escrita por um desconhecido que assinou com nome inventado.
Quatro séculos depois, o mercado brasileiro carrega a divisão de origem. Há editoras que vendem as duas partes num volume só, outras que separam o romance em dois livros numerados, e há edições, sobretudo adaptações e versões de bolso, que trazem só a parte de 1605 com o título inteiro na capa.
Quem leva só a primeira metade lê os moinhos de vento, a bacia de barbeiro que vira elmo, a estalagem confundida com castelo. E fica sem o governo de Sancho Pança, sem a viagem a Barcelona e sem o último capítulo, aquele em que o fidalgo recupera o juízo.
O problema raramente aparece na compra. A capa mostra o cavaleiro, a lança e o cavalo; o preço parece razoável; o número de páginas não chama atenção. A surpresa vem semanas depois, quando o leitor vira a última folha e o livro termina com o herói voltando para casa numa jaula de madeira, puxada por bois.
A faixa I conta o que cada parte entrega e por que as duas formam um romance só. A II reúne os dados para reconhecer a edição pelo sumário. A III monta a conferência que leva dois minutos dentro da livraria ou na página da loja.
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I O Livro em 3 Minutos
Um fidalgo, um escudeiro e 10 anos de intervalo
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Dom Quixote de la Mancha conta a história de Alonso Quijano, um fidalgo (nobre de baixa patente, com terra e pouco dinheiro) de uns 50 anos que lê tantos romances de cavalaria que decide virar cavaleiro andante. Arruma uma armadura velha, batiza o cavalo magro de Rocinante e sai pela Mancha para corrigir injustiças.
A frase de abertura virou uma das mais citadas da língua espanhola: “Num lugar da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me”, escreveu Cervantes em Dom Quixote, em 1605, sem nunca revelar a aldeia ao longo do romance.
Na segunda saída, o fidalgo leva junto Sancho Pança, um lavrador vizinho, com a promessa de que ganharia uma ilha para governar. A dupla é o motor do livro: o cavaleiro enxerga gigantes e castelos, o escudeiro enxerga moinhos e estalagens, e os dois discutem o caminho inteiro.
A parte de 1605 tem 52 capítulos e é a mais conhecida. Ali estão a luta contra os moinhos, no capítulo 8, o ataque a um rebanho de ovelhas tomado por exército e a libertação de presos condenados às galés (navios de guerra movidos a remo), que pagam o favor com pedradas.
Essa primeira parte também abre espaço para histórias paralelas, como a novela O Curioso Impertinente, lida em voz alta numa estalagem. E termina com o fidalgo levado de volta para a aldeia numa jaula, convencido de que está encantado, enquanto o narrador menciona boatos de uma terceira saída, rumo a Saragoça.
A parte de 1615 tem 74 capítulos e muda o jogo. Os personagens agora sabem que existe um livro sobre eles: um duque e uma duquesa que leram a primeira parte recebem o cavaleiro no palácio e montam farsas para rir dele. É uma das primeiras metaficções (ficção que comenta a si mesma) da literatura europeia.
Nessa metade, Sancho finalmente ganha a ilha prometida, a Ínsula Barataria, que no fundo é um povoado dos duques. Ele governa por poucos dias e julga casos com mais bom senso do que os nobres esperavam. Depois a dupla segue para Barcelona, onde o fidalgo perde um duelo para o Cavaleiro da Branca Lua.
A derrota obriga o cavaleiro a voltar para casa e largar as armas por um ano. De volta à aldeia, ele adoece, recupera o juízo, renega os livros de cavalaria e dita o testamento como Alonso Quijano, o Bom. O romance termina ali, com a história fechada.
Por esse motivo a segunda parte não é apêndice. Ela responde à pergunta que a primeira deixa no ar, o que acontece com um homem que passa a vida dentro dos livros, e só ela traz a resposta.
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A parte de 1605 termina com o herói numa jaula; o desfecho do romance está inteiro na parte de 1615.
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II A Ficha
126 capítulos, 2 livros e um impostor no meio
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A segunda parte existe em parte por causa de um impostor, e o prólogo de 1615 responde a ele com todas as letras.
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A ficha reúne o que separa uma parte da outra.
| Autor | Miguel de Cervantes Saavedra | | Parte I | Madri, 1605, 52 capítulos | | Parte II | Madri, 1615, 74 capítulos | | Romance inteiro | 126 capítulos | | Continuação falsa | Tarragona, 1614, Avellaneda | | Integral em 2 volumes | Editora 34 e Penguin-Companhia |
O nome Avellaneda guarda um mistério que segue aberto. Em 1614 saiu em Tarragona um segundo tomo do Quixote assinado por Alonso Fernández de Avellaneda, pseudônimo de alguém que ninguém identificou com certeza. O filólogo Martín de Riquer defendeu que o autor seria o soldado Jerónimo de Pasamonte, mas a hipótese nunca ganhou prova documental, e o caso segue sem solução.
O livro falso irritou Cervantes, que estava escrevendo a continuação verdadeira. Dentro do romance de 1615, ele faz o próprio Dom Quixote ouvir falar da obra apócrifa (de autoria falsa) numa estalagem e desmentir o que ela conta sobre ele.
A resposta mais concreta está no roteiro. Avellaneda tinha mandado o cavaleiro para as justas (torneios entre cavaleiros) de Saragoça; Cervantes muda o caminho e leva a dupla para Barcelona só para provar que o outro mentia.
No Brasil, o leitor encontra três formatos. O primeiro é a edição integral em dois volumes, um para cada parte, como a da Editora 34, com tradução de Sérgio Molina, e a da Penguin-Companhia, com tradução de Ernani Ssó. Comprar o volume 1 sozinho, nesses casos, é levar metade do romance.
O segundo formato junta as duas partes num tomo único, comum em capa dura e em coleções de clássicos. É o caminho de quem quer o livro inteiro numa compra só, aceitando carregar um volume pesado.
O terceiro gera a confusão: edições de bolso, adaptações e versões condensadas que trazem só a parte de 1605, ou um resumo das duas, com o título completo na capa. Nem sempre a contracapa avisa.
A pista mais segura está no sumário. A parte de 1605 vai do capítulo 1 ao 52; a de 1615 recomeça a numeração do capítulo 1 e chega ao 74. Se o índice para no 52 e não recomeça, o volume entrega só a primeira metade.
Outra pista é o prólogo. A segunda parte abre com um texto dirigido ao leitor em que Cervantes rebate Avellaneda, que o tinha chamado de velho e maneta. Se esse prólogo aparece no meio do livro, a edição traz as duas partes.
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