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Dos R$ 69,90 de Torto Arado, R$ 6,99 ficam com o autor
A livraria leva R$ 31,46 no desconto de capa e a Todavia fica com o resto: a ficha divide o exemplar impresso de 264 páginas.
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Onde cada real do exemplar de R$ 69,90 vai parar
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U ma nota fiscal de R$ 69,90, um contrato de edição de poucas páginas, uma caixa de papelão parada na doca de uma distribuidora. Os três aparecem no caminho de um exemplar de Torto Arado, e cada um retira um pedaço do preço impresso na orelha antes que o livro alcance a sua mesa.
O preço de capa é um número só, mas ele nunca vai inteiro para lugar nenhum. Ele é fatiado em pontos fixos da cadeia: o varejo desconta a sua parcela na hora da compra junto à editora, a editora paga gráfica, distribuição e escritório, e o autor recebe um percentual calculado sobre a capa, não sobre a sobra.
Em consulta feita em 12/09/2026 nas grandes lojas brasileiras, Torto Arado aparece com preço de capa de R$ 69,90 na edição impressa da Todavia, com 264 páginas, e por volta de R$ 34,90 no arquivo digital. O mesmo romance, duas etiquetas, e repartições internas bem distintas.
O percentual do autor não é definido por lei. A Lei 9.610/1998, a Lei de Direitos Autorais brasileira, manda que o contrato de edição fixe a remuneração e o número de exemplares da tiragem, e deixa o valor da remuneração para a negociação das partes. O que o mercado escreve nesses contratos de ficção adulta costuma ficar na casa de um dígito alto, e a cifra que circula como praxe são os 10% sobre o preço de capa.
Dez por cento de R$ 69,90 dão R$ 6,99 por exemplar vendido. Nove de cada dez reais da etiqueta seguem outro caminho, e a maior fatia isolada nem chega à editora: fica no balcão que vendeu.
Antes da conta completa, vale saber o que está dentro das 264 páginas, porque o cálculo de quem merece qual pedaço muda quando você sabe quanto trabalho está impresso ali.
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I O Livro em 3 Minutos
Duas irmãs e uma faca embaixo da cama
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Torto Arado, romance de Itamar Vieira Junior publicado pela Todavia em 2019, começa com duas meninas, Bibiana e Belonísia, abrindo a mala da avó Donana embaixo de uma cama de barro batido. Dentro da mala há uma faca de cabo de marfim embrulhada em pano. As duas levam a lâmina à boca para entender o gosto do metal, e o acidente que se segue tira a fala de uma delas para sempre.
A história se passa na Fazenda Água Negra, na Chapada Diamantina, interior da Bahia, onde famílias descendentes de escravizados vivem e plantam em terra alheia sob um acordo antigo: podem trabalhar o roçado e erguer casa de barro, sem direito a construir de tijolo, sem salário fixo e sem título de posse. A escravidão acabou em 1888 e o arranjo continuou de pé, mudando de nome.
O romance tem três partes, cada uma com um foco distinto. A primeira é narrada por Bibiana, a irmã que ficou com a voz, e acompanha a infância, a fuga com o primo Severo e a volta como liderança. A segunda passa a Belonísia, a que perdeu a fala e aprendeu a mandar com gesto, corpo e trabalho. A terceira entrega a narração a uma entidade do jarê, religião afro-brasileira praticada na Chapada Diamantina, que fala pela boca das encantadas e vê a fazenda de fora do tempo.
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O motor do livro não é o mistério da faca, resolvido nas primeiras páginas, e sim a pergunta de quem é o dono de uma terra trabalhada por cinco gerações sem um papel que confirme a posse.
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O autor conhece o assunto por ofício, não só por pesquisa de escritor. Itamar Vieira Junior é geógrafo, trabalhou no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária em processos de reconhecimento de territórios quilombolas e escreveu tese de doutorado em estudos étnicos e africanos na Universidade Federal da Bahia sobre comunidades rurais quilombolas.
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Foi na velha mala de couro de dona Donana, escondida sob a cama, que encontramos a faca.
Itamar Vieira Junior, Torto Arado, Todavia, 2019
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O caminho de publicação ajuda a explicar o preço que a ficha vai destrinchar. O original venceu o Prêmio LeYa em 2018, em Portugal, saiu primeiro em português europeu e só depois chegou ao Brasil pela Todavia, em 2019. Em 2020, levou o Prêmio Oceanos de literatura em língua portuguesa.
O que o romance entrega: prosa curta e direta, capítulos que cabem em dez minutos, uma trama familiar com violência, ciúme e herança, e um retrato de trabalho rural que quase nunca aparece na ficção brasileira contemporânea.
O que o romance cobra: vocabulário de roça e de religião de matriz africana sem glossário, um trecho final em registro místico que divide leitores, e cenas de violência doméstica narradas sem anestesia.
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II A Ficha
Sete reais para quem escreveu, trinta e um para quem vendeu
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Dos R$ 69,90 impressos na capa de Torto Arado, R$ 6,99 vão ao autor nos 10% de praxe do contrato de edição, e R$ 31,46 ficam no varejo que passou o cartão.
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A cadeia do livro físico no Brasil tem três bocas fixas e uma quarta eventual. A editora vende ao varejo com desconto sobre a capa, o varejo revende pelo preço cheio e embolsa esse desconto, o distribuidor entra quando a editora não atende a loja direto, e o autor recebe direito autoral calculado sobre a capa, pago pela editora.
A conta abaixo aplica um desconto de varejo de 45% sobre a capa, faixa usual nas negociações de grandes redes, e os 10% de direito autoral da praxe contratual. Os valores saem de divisão simples sobre os R$ 69,90 observados em 12/09/2026, não de balanço publicado pela editora:
| Preço de capa do exemplar impresso | R$ 69,90 | | Fica na livraria, desconto de 45% | R$ 31,46 | | Entra na Todavia, os 55% restantes | R$ 38,44 | | Direito autoral do escritor, 10% da capa | R$ 6,99 | | Impressão, papel e encadernação, cerca de 15% da capa | R$ 10,49 | | Sobra para a editora cobrir edição, revisão, capa, estoque e venda | R$ 20,96 |
O número que costuma surpreender está na segunda linha. O maior pedaço isolado do preço não vai para quem escreveu nem para quem editou, vai para quem colocou o exemplar na prateleira e assumiu o risco de ele encalhar ali por dois anos.
Os R$ 20,96 que restam à Todavia não são lucro. Deles saem o preparo do texto, a revisão em duas ou três passadas, o projeto gráfico, a produção da capa, o armazenamento em galpão, a equipe comercial, a assessoria de imprensa e a devolução de exemplares não vendidos, prática em que o varejo devolve à editora o que não girou.
O digital reparte de outro jeito. Sem papel, sem frete e sem devolução, o arquivo de R$ 34,90 ainda paga comissão de loja virtual, em geral 30% do preço de venda, e o direito autoral do escritor costuma subir para a faixa de 25% do valor líquido recebido pela editora nos contratos brasileiros de ebook.
Aplicando essas taxas ao arquivo de R$ 34,90 observado na mesma consulta:
| Preço do arquivo digital | R$ 34,90 | | Comissão da loja virtual, 30% | R$ 10,47 | | Líquido que chega à editora | R$ 24,43 | | Direito autoral do escritor, 25% do líquido | R$ 6,11 | | Sobra para a editora, sem custo de papel | R$ 18,32 |
O escritor recebe R$ 6,99 no impresso e R$ 6,11 no digital, valores próximos apesar das etiquetas muito distantes. A editora, sem gráfica e sem estoque, fica com margem parecida vendendo pela metade do preço.
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A ficha da repartição: R$ 6,99 ao escritor, R$ 31,46 à livraria, R$ 10,49 à gráfica e R$ 20,96 à Todavia para transformar um arquivo de texto em 264 páginas encadernadas na sua mão.
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