|
Antologia Poética, de Carlos Drummond de Andrade, saiu em 1962 pela Editora do Autor, casa fundada no Rio de Janeiro pelos escritores Fernando Sabino e Rubem Braga. Drummond, nascido em Itabira, Minas Gerais, em 1902, tinha então 32 anos de poesia publicada.
A estreia em livro foi Alguma Poesia, de 1930. Ali já estavam o Poema de sete faces e No meio do caminho, o poema da pedra que dividiu críticos e leitores quando apareceu, em 1928, na Revista de Antropofagia.
Até 1962 vieram Sentimento do Mundo, de 1940, A Rosa do Povo, de 1945, e Claro Enigma, de 1951, entre outros títulos. A antologia recolhe poemas desses livros e os reorganiza em nove partes temáticas, cada uma com um título tirado da própria obra.
A primeira trata do indivíduo e se chama Um eu todo retorcido. A segunda é a terra natal, Uma província: esta. A terceira é a família, A família que me dei. A quarta reúne os amigos em Cantar de amigos.
A quinta parte, Na praça de convites, cuida do choque social, os poemas sobre a guerra, a cidade e a injustiça. A sexta, Amar-amaro, junta os poemas de amor, e o título já avisa que o amor ali vem com gosto amargo.
O ofício, o jogo e o mundo
A sétima parte, Poesia contemplada, traz os poemas em que Drummond pensa a própria escrita. A oitava, Uma, duas argolinhas, reúne os exercícios lúdicos, versos de brincadeira com som e rima.
A nona e última é a mais longa no título: Tentativa de exploração e de interpretação do estar-no-mundo. Ali ficam os poemas sobre a existência, entre eles A máquina do mundo, de Claro Enigma.
A consequência prática da divisão é que um poema de 1930 pode ficar ao lado de outro escrito vinte anos depois. O leitor não acompanha a evolução do estilo; acompanha a insistência de um tema ao longo da vida do autor.
A escolha tem custo, e o leitor deve saber dele. Quem quer ver como Drummond saiu do verso modernista, cheio de humor, para a forma mais clássica de Claro Enigma, não acha esse percurso na antologia. Para ele, o caminho é ler os livros na ordem em que saíram.
O exemplo mais citado é Itabira. A cidade aparece na estreia e reaparece em Confidência do itabirano, de 1940, no verso em que o poeta diz que a cidade “é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!”.
|
Drummond organizou a antologia pelo que voltava a doer, não pelo ano em que escreveu.
|
|