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Drummond dividiu a própria antologia em 9 partes

Em 1962, o poeta escolheu e agrupou os próprios poemas por tema, e a divisão mostra por onde um leitor novo começa.

Exemplar aberto da Antologia Poética de Drummond no sumário das nove partes, sobre uma mesa de madeira.

A antologia que o poeta montou em 1962

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Uma pedra no caminho, um retrato de Itabira na parede, um homem chamado José sem saber para onde ir. Os três moram em poemas que muita gente sabe de cor sem nunca ter aberto um livro inteiro do autor.

Esse é o retrato comum do leitor de poesia no Brasil. Conhece versos soltos, citados em prova de vestibular, em cartão de aniversário ou em legenda de foto, e trava quando entra na livraria e encontra a obra reunida em volume grosso.

A trava tem motivo. Poesia não se lê como romance, da primeira à última página, e um volume com décadas de produção assusta quem não sabe se começa pela estreia, pelo livro mais premiado ou pelo poema que lembra da escola.

Há um livro que resolve a escolha, e foi o próprio poeta quem o montou. Em vez de esperar que um crítico decidisse quais poemas mereciam ficar, ele mesmo separou os seus, cortou o resto e explicou o critério numa nota curta no começo.

O critério não foi a data. Ele recusou a ordem cronológica, aquela em que o leitor acompanha o autor livro a livro, e preferiu agrupar os textos pelos assuntos que voltavam na obra inteira: a cidade natal, a família, os amigos, o amor, o próprio ofício de escrever.

O resultado funciona como um mapa. Quem abre o índice vê de saída quais temas ocupam o poeta e pode escolher a porta que combina com o momento: o leitor que acabou de perder alguém entra por um lado, o que quer rir entra por outro.

Seleção feita por terceiros costuma refletir o gosto de quem escolheu. Seleção feita pelo autor mostra como ele próprio queria ser lido, e a escolha muda a leitura de cada poema.

A seção I apresenta o livro e as nove partes. A II põe a seleção lado a lado com a obra completa, em páginas e livros. A III diz por qual parte um leitor novo entra.

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I  O Livro em 3 Minutos

Nove gavetas em vez de uma linha do tempo

Antologia Poética, de Carlos Drummond de Andrade, saiu em 1962 pela Editora do Autor, casa fundada no Rio de Janeiro pelos escritores Fernando Sabino e Rubem Braga. Drummond, nascido em Itabira, Minas Gerais, em 1902, tinha então 32 anos de poesia publicada.

A estreia em livro foi Alguma Poesia, de 1930. Ali já estavam o Poema de sete faces e No meio do caminho, o poema da pedra que dividiu críticos e leitores quando apareceu, em 1928, na Revista de Antropofagia.

Até 1962 vieram Sentimento do Mundo, de 1940, A Rosa do Povo, de 1945, e Claro Enigma, de 1951, entre outros títulos. A antologia recolhe poemas desses livros e os reorganiza em nove partes temáticas, cada uma com um título tirado da própria obra.

A primeira trata do indivíduo e se chama Um eu todo retorcido. A segunda é a terra natal, Uma província: esta. A terceira é a família, A família que me dei. A quarta reúne os amigos em Cantar de amigos.

A quinta parte, Na praça de convites, cuida do choque social, os poemas sobre a guerra, a cidade e a injustiça. A sexta, Amar-amaro, junta os poemas de amor, e o título já avisa que o amor ali vem com gosto amargo.

O ofício, o jogo e o mundo

A sétima parte, Poesia contemplada, traz os poemas em que Drummond pensa a própria escrita. A oitava, Uma, duas argolinhas, reúne os exercícios lúdicos, versos de brincadeira com som e rima.

A nona e última é a mais longa no título: Tentativa de exploração e de interpretação do estar-no-mundo. Ali ficam os poemas sobre a existência, entre eles A máquina do mundo, de Claro Enigma.

A consequência prática da divisão é que um poema de 1930 pode ficar ao lado de outro escrito vinte anos depois. O leitor não acompanha a evolução do estilo; acompanha a insistência de um tema ao longo da vida do autor.

A escolha tem custo, e o leitor deve saber dele. Quem quer ver como Drummond saiu do verso modernista, cheio de humor, para a forma mais clássica de Claro Enigma, não acha esse percurso na antologia. Para ele, o caminho é ler os livros na ordem em que saíram.

O exemplo mais citado é Itabira. A cidade aparece na estreia e reaparece em Confidência do itabirano, de 1940, no verso em que o poeta diz que a cidade “é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!”.

Drummond organizou a antologia pelo que voltava a doer, não pelo ano em que escreveu.

 
 

II  A Ficha

Uma seleção de 1962 contra 1.500 páginas

A antologia cabe numa bolsa; a obra completa pede mesa.

Os dados principais da obra:

AutorCarlos Drummond de Andrade
Primeira edição1962
Editora originalEditora do Autor
Organizaçãoo próprio poeta
Partes9, por tema
Edição atualCompanhia das Letras

No prato oposto da balança fica a Poesia Completa, volume da editora Nova Aguilar publicado em 2002 e com mais de 1.500 páginas. Ele reúne os livros de poesia de Drummond da estreia de 1930 até Farewell, lançado em 1996, nove anos após o poeta encerrar a carreira em 1987.

A comparação em páginas ajuda a medir o tamanho da escolha. A antologia guarda uma fração da produção e deixa de fora livros inteiros escritos depois de 1962, como Boitempo e As impurezas do branco, que só existem na obra completa.

E a conta dos poemas? O número exato muda conforme a edição, porque Drummond revisou a seleção em vida e as reimpressões seguintes seguiram versões diferentes. Nenhum dado oficial único vale para todas as tiragens; a conta segura é a do sumário do exemplar que você tem.

A nota que abre o livro explica o critério da escolha. Nela, Drummond diz que preferiu agrupar os textos por afinidade de tema a seguir a ordem de publicação, e lista as nove partes com o assunto de cada uma.

O verso mais conhecido da estreia mostra por que o critério temático faz sentido. “Mundo mundo vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução”, escreveu Carlos Drummond de Andrade em Poema de sete faces, em Alguma Poesia, de 1930.

O poema trata do indivíduo deslocado, o tema da primeira parte, e mistura humor com angústia. Lido sozinho, parece piada; lido entre os outros poemas sobre o eu, revela a solidão que Drummond repetiria por décadas.

Acontece também com José, poema de 1942. A pergunta que se repete nele, “e agora, José?”, virou expressão de rua no Brasil, usada por gente que nunca leu o poema e não sabe de onde ela saiu.

A obra completa tem vantagens próprias. Mostra a ordem real dos livros, permite ver o poeta mudar de forma e guarda os textos tardios. Serve ao leitor que já gosta do autor e quer tudo.

Para o leitor novo, porém, 1.500 páginas sem roteiro viram estante parada. A antologia entrega o roteiro feito pela pessoa que melhor conhecia os poemas.

 

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III  Já Está no Seu Plano

Comece pela gaveta que é sua

Antologia Poética já está no seu plano se você conhece meia dúzia de versos de Drummond e quer, enfim, ler o poeta inteiro sem se perder. A divisão em nove partes permite começar pelo assunto, e não pela página 1.

O caminho de entrada em quatro passos:

1. Abra o sumário e leia só os nove títulos das partes. Marque a que fala do que ocupa a sua cabeça nesta semana.

2. Leia a parte marcada inteira, sem pular. Cada uma tem poucos poemas e cabe numa sentada de meia hora.

3. Volte para a primeira parte, Um eu todo retorcido. Ela traz o Poema de sete faces e dá a chave do tom irônico que atravessa o livro.

4. Só então siga a ordem do livro. A essa altura, os poemas que você leu fora da sequência ganham vizinhos e passam a conversar entre si.

O passo 1 resolve a trava da livraria. Quem chega a Drummond pela parte que já interessa termina a primeira leitura e quer a segunda, e é assim que o hábito pega.

O passo 3 existe porque o humor de Drummond engana. O Poema de sete faces começa com um anjo torto mandando o poeta ser gauche na vida, palavra francesa que quer dizer desajeitado, torto, fora do lugar. Entender esse desajeito ajuda a ler o resto.

Quem gosta de família pode entrar por A família que me dei, onde está Retrato de família. Quem prefere o mundo lá fora entra por Na praça de convites, com os poemas que Drummond escreveu durante a Segunda Guerra.

A obra completa fica para depois. Quando a antologia terminar e algum poema deixar vontade de mais, procure na Poesia Completa o livro de onde ele saiu e leia o livro inteiro na ordem original.

Teste hoje: abra o sumário da Antologia Poética, ou a amostra gratuita da loja digital, e conte os poemas da parte que você escolheu. Leia todos numa sentada e marque com um traço os que pediram releitura. Se dois ou mais ganharem o traço, a sua porta de entrada está achada.

“Por qual das nove partes de Drummond você entraria primeiro?”

 
 
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Em quantos critério temático Drummond dividiu a Antologia Poética de 1962?

A7 partes, por década de publicação
B9 partes, por tema
C5 partes, por livro de origem
D12 partes, em ordem cronológica

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