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Frankenstein de 1818 ou de 1831: a ficha que responde
Mary Shelley deixou 2 versões do romance, com trechos trocados e uma introdução nova, e cada edição brasileira traduz uma delas.
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Frankenstein aberto na folha de rosto
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Uma folha de rosto, uma introdução assinada em Londres, uma prima que vira órfã adotada. Os três servem de pista para a mesma pergunta: qual Frankenstein está impresso no exemplar que você vai comprar.
Frankenstein ou o Prometeu Moderno, de Mary Wollstonecraft Shelley, existe em duas versões preparadas pela própria autora. A primeira saiu em Londres em 1818, sem o nome dela na capa. A segunda saiu em 1831, revista, com trechos reescritos e uma introdução nova em que Mary conta como a história nasceu.
As duas circulam até agora, e cada editora escolhe uma delas como base. Quem compra no escuro pode receber a versão que o professor não pediu, ou ficar sem o texto que mais aparece em resenhas sobre a origem do livro.
A diferença pesa em pontos concretos. Na versão de 1818, Elizabeth Lavenza, a noiva de Victor Frankenstein, é prima dele de sangue. Na de 1831, ela vira uma órfã encontrada numa casa de camponeses no norte da Itália e adotada pela família. Victor também muda de tom: o texto revisto reforça a ideia de um destino que o arrasta, enquanto o de 1818 deixa mais peso nas escolhas dele.
A capa não avisa nada. Título, criatura e autora aparecem iguais nas duas versões. A resposta mora num lugar que quase ninguém lê antes da compra: a ficha catalográfica, o quadro no verso da folha de rosto com editora, tradutor, título original e ano, e a nota do tradutor ou do editor nas primeiras páginas.
Antes de abrir a ficha, vale saber como uma jovem de 18 anos escreveu o livro num verão chuvoso na Suíça, e por que voltou a ele 13 anos depois da estreia. A faixa I conta a história; a II lista o que muda de uma versão para a outra; a III mostra como achar a resposta no exemplar.
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I O Livro em 3 Minutos
O verão sem sol no lago de Genebra
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Mary Wollstonecraft Shelley começou Frankenstein em junho de 1816, aos 18 anos, na Villa Diodati, casa alugada pelo poeta Lord Byron às margens do lago de Genebra. Ela estava lá com Percy Bysshe Shelley, com quem se casaria no fim daquele ano, e com o médico John Polidori, secretário de Byron.
O tempo ajudou. A erupção do vulcão Tambora, na Indonésia, em 1815, esfriou o hemisfério norte, e 1816 ficou conhecido na Europa como o ano sem verão. Presos em casa pela chuva, os amigos liam histórias alemãs de fantasmas até Byron propor que cada um escrevesse a sua.
Mary passou dias sem ideia nenhuma. A trama veio, segundo o relato dela, numa noite de insônia: a imagem de um estudante pálido ajoelhado diante da criatura que acabara de montar, e o susto dele quando o ser abre os olhos.
O romance acompanha Victor Frankenstein, jovem de Genebra que estuda ciência natural em Ingolstadt, na Alemanha, e dá vida a um ser feito de partes de cadáveres. Assustado com o resultado, ele foge. A criatura, que nunca recebe nome, aprende a falar e a ler sozinha, é rejeitada por todos que encontra e passa a cobrar do criador uma companheira.
A moldura é epistolar (feita de cartas): o capitão Robert Walton, preso no gelo do Ártico, escreve à irmã contando o que ouviu de Victor, que por sua vez reproduz o relato da criatura. São três narradores encaixados, um dentro do outro.
A primeira edição saiu em 1º de janeiro de 1818, em três volumes, pela pequena editora londrina Lackington, Hughes, Harding, Mavor & Jones, com tiragem de 500 exemplares e sem o nome da autora. O prefácio, escrito por Percy Shelley, levou parte dos críticos a atribuir o livro a ele.
Em 1823, o pai de Mary, o filósofo William Godwin, lançou uma segunda edição em dois volumes, com pequenas correções, para aproveitar o sucesso de uma adaptação no teatro de Londres. Foi a primeira com o nome dela na folha de rosto.
A versão de 1831 nasceu de um convite comercial. A editora Colburn and Bentley incluiu o romance na coleção Standard Novels, em volume único e barato, e Mary aproveitou para revisar o texto e escrever uma introdução contando a noite na Villa Diodati.
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E agora, mais uma vez, mando minha hedionda progênie seguir adiante e prosperar.
Mary Shelley, introdução a Frankenstein, 1831
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Hedionda progênie (a cria horrenda) é como ela chama o livro, e a expressão virou uma das mais citadas sobre a obra. Ela só existe na versão de 1831: quem lê o texto de 1818 sem apêndice não encontra a introdução nem a cena da insônia.
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A aposta entre amigos na Suíça, que quase toda resenha repete, vem da introdução de 1831. O texto de 1818 não traz uma linha sobre ela.
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II A Ficha
Elizabeth, a prima que virou órfã
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Duas versões, uma autora: a de 1818 é o livro que o público leu primeiro; a de 1831 é o livro que Mary Shelley quis deixar.
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A ficha abaixo junta os dados que separam as duas versões de Frankenstein. Cada linha serve de pista na hora de identificar o exemplar.
| Título original | Frankenstein; or, The Modern Prometheus | | Primeira edição | Londres, 1818, 3 volumes | | Nome da autora na capa | a partir de 1823 | | Versão revista | 1831, volume único | | Introdução de Mary Shelley | só na de 1831 | | Prefácio de Percy Shelley | nas duas | | Elizabeth | prima em 1818, adotada em 1831 |
Elizabeth. É a troca mais fácil de achar. Em 1818, ela é filha de uma irmã do pai de Victor e chega à casa da família depois de ficar sem mãe. Em 1831, a mãe de Victor a encontra entre os filhos de uma família pobre perto do lago de Como e a leva para Genebra. A mudança tira do casamento o parentesco de sangue entre noivo e noiva.
Destino. Na revisão, Mary acrescentou falas em que Victor se descreve arrastado por forças que não controla. O texto de 1818 deixa a responsabilidade mais nas mãos dele: ele escolhe criar e escolhe fugir. A pesquisadora americana Anne K. Mellor, no livro Mary Shelley: Her Life, Her Fiction, Her Monsters, de 1988, defende a primeira versão por esse motivo.
Introdução. As páginas de 1831 contam a aposta, a insônia e a imagem do estudante diante da criatura. Parte das edições baseadas em 1818 reproduz essa introdução como apêndice, no fim do volume, e a nota do editor explica a escolha.
Ciência. As duas versões mostram Victor, ainda menino, vendo um raio destruir um carvalho perto de casa. A de 1831 reescreve a explicação sobre eletricidade que ele recebe em seguida e dá mais espaço às leituras de alquimistas antigos, como Cornélio Agripa e Paracelso.
Tradução. Toda edição brasileira parte de um dos dois textos em inglês. A ficha catalográfica costuma trazer o título original, e a nota do tradutor, quando existe, diz qual texto serviu de base. Quando a ficha só informa o título, a pista está no capítulo 1.
Cinema. Os filmes, a começar pelo de 1931 da Universal com Boris Karloff, não seguem nenhuma das duas versões de perto. O nome Frankenstein dado à criatura e o laboratório cheio de raios vêm do teatro e do cinema, não do romance.
Três perfis resumem a escolha. Edição de 1818: o livro como o público leu na estreia, pedido em curso que estuda a recepção da obra. Edição de 1831: a versão final da autora, com a introdução famosa abrindo o volume. Edição de 1818 com a introdução em apêndice: os dois textos úteis num volume só.
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