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Helene Hanff preferia o livro marcado por outro leitor

Durante 20 anos, uma livraria de Londres mandou livros usados para Nova York. O marcador do dono anterior vira um teste de leitura.

Livro usado aberto com um marcador antigo entre as páginas e um lápis ao lado.

O marcador guarda onde o dono parou

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Um marcador de papelão de uma livraria fechada, um nome escrito a lápis na folha de rosto, uma orelha dobrada no canto da página 143. Os três vieram dentro do mesmo exemplar comprado num sebo, e os três apontam até onde o dono anterior chegou.

O marcador é a pista mais confiável. A dedicatória diz quem ganhou o livro, a orelha dobrada pode ser descuido, mas o papelão parado numa página costuma guardar a última noite de leitura antes de o volume voltar para a estante e, anos depois, para a banca do sebo.

Quem frequenta sebo conhece o padrão. Muitos marcadores param no primeiro terço do volume. Alguns ficam a poucas páginas do fim, o que intriga mais: a pessoa chegou perto e largou.

Um sebo grande recebe estantes inteiras de uma vez, quando uma família esvazia o apartamento de um parente, e os marcadores chegam junto, cada um parado no ponto em que a mão deixou o livro.

A pista vale mais do que parece para quem quer voltar a ler. Ela dá um número concreto, a página do outro, contra o qual a sua própria leitura pode ser medida. Ninguém precisa competir com um desconhecido; basta ter um ponto de referência num hábito que costuma andar sem nenhum.

O gosto pelo rastro de outro leitor tem uma defensora famosa. No fim dos anos 1940, uma roteirista de Nova York começou a encomendar livros usados de uma livraria de Londres e passou a preferir justamente os exemplares com nome, nota e sublinhado de gente que ela nunca conheceu.

As cartas dessa troca viraram um best-seller curto, lido em uma ou duas noites, que segue em catálogo há mais de meio século e já passou pelo palco de Londres e pelo cinema.

A história dela explica por que o marcador do dono anterior merece atenção, e a ficha do livro mostra o que um exemplar usado carrega além do texto impresso.

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I  O Livro em 3 Minutos

A roteirista e o livreiro

Helene Hanff, escritora e roteirista nascida na Filadélfia em 1916, morava num apartamento pequeno em Nova York em 1949 e não achava ali, a preço possível, os clássicos ingleses que queria ler. Viu um anúncio da Marks & Co., livraria de livros usados no número 84 da Charing Cross Road, em Londres, e mandou uma carta com a lista de pedidos.

Quem respondeu foi Frank Doel, livreiro da casa. Ele achou boa parte dos títulos, mandou os volumes pelo correio e informou o valor em dólar. A troca começou assim, comercial e formal, e durou 20 anos.

A Inglaterra do pós-guerra ainda vivia sob racionamento de comida. Hanff passou a mandar pacotes com carne enlatada, ovos desidratados e presunto para os funcionários da livraria. As cartas começaram a chegar de outras mãos também: colegas de Doel e a mulher dele, Nora, escreveram para agradecer.

As cartas mostram a mudança de tom. Hanff começa tratando o livreiro com cerimônia e, com o passar dos anos, passa a provocá-lo pelos atrasos, pelas edições que ele não encontrava e pela lentidão do correio.

O exemplar que já foi lido

Hanff tinha gosto declarado por livro com marca de uso. “Adoro dedicatórias na folha de rosto e notas na margem”, escreveu ela numa das cartas reproduzidas em “84, Charing Cross Road” (1970). Na mesma carta, ela diz gostar de virar páginas que outra pessoa já virou e de ler trechos que alguém, muito tempo antes, fez questão de apontar.

Para Hanff, o rastro do leitor anterior funcionava como companhia. O livro chegava ao apartamento de Nova York já conversado, com a leitura de alguém guardada nas margens.

Num livro usado, o texto é igual ao de qualquer exemplar; o que muda é o rastro de quem leu antes.

Das cartas ao livro

Frank Doel faleceu em dezembro de 1968, de uma peritonite (inflamação grave da membrana que reveste o abdome). Hanff recebeu a notícia por carta da própria livraria, no começo de 1969. A Marks & Co. fechou as portas em 1970.

Hanff reuniu as cartas e as publicou em 1970 pela Grossman Publishers, de Nova York. O livro ganhou leitores dos dois lados do Atlântico, virou peça de teatro em Londres em 1981 e filme em 1987, com Anne Bancroft e Anthony Hopkins, lançado no Brasil como “Nunca Te Vi, Sempre Te Amei”.

Ela só pisou em Londres em 1971, já sem o livreiro, para divulgar a edição inglesa. A viagem rendeu outro livro, “The Duchess of Bloomsbury Street” (A duquesa da Bloomsbury Street), de 1973. No endereço da antiga livraria há hoje uma placa redonda que lembra a correspondência.

 
 

II  A Ficha

O que vem dentro do exemplar

A ficha do livro:

Título84, Charing Cross Road
AutoraHelene Hanff
Primeira edição1970, Grossman
Formatocartas
Período1949 a 1969
LivreiroFrank Doel
PeçaLondres, 1981
Filme1987
No BrasilNunca Te Vi, Sempre Te Amei

A ficha mostra um livro sem narrador. Tudo o que o leitor sabe chega pelas cartas, com datas no topo, e o tempo passa nos intervalos entre uma e outra. Quem lê vai juntando as pistas do mesmo jeito que se lê um exemplar de sebo.

Quatro marcas e o que cada uma diz

O marcador esquecido diz a página em que a leitura parou. Pode ser um cartão de visita, um bilhete de ônibus, uma nota fiscal ou um papelão da própria livraria; quando traz data, ainda mostra em que ano a leitura aconteceu.

O nome na folha de rosto (a primeira página impressa, com título e autor) diz quem era o dono e, às vezes, quando comprou. Dedicatória com data conta se o livro foi presente e de quem.

O carimbo ou a etiqueta de livraria diz onde o exemplar foi vendido pela primeira vez. Muitos sebos também escrevem o preço a lápis no canto da primeira página, o que ajuda a reconstituir por quantas mãos ele passou.

O sublinhado diz até onde a atenção foi. Quando ele some a partir de certo capítulo, a leitura atenta provavelmente parou ali, mesmo que o marcador esteja mais adiante.

O marcador diz onde o dono parou; o último sublinhado diz onde ele deixou de prestar atenção.

Os limites da pista

Nenhuma dessas marcas é prova. O marcador pode ter sido posto pelo livreiro, para guardar o lugar de uma etiqueta, ou por um segundo dono que nem chegou a ler. O livro pode ter sido lido até o fim e o papelão ter ficado esquecido numa página qualquer.

Por esse motivo, a página anotada vale como referência pessoal. Ela não diz nada sobre a qualidade do livro nem sobre a capacidade de quem o largou; diz só que, naquele ponto, alguém fechou o volume e não voltou.

Mesmo assim, ela tem uma vantagem sobre qualquer meta inventada: veio de um leitor de carne e osso, que segurou aquele mesmo volume e parou num ponto exato.

 

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III  Já Está no Seu Plano

A página do outro e a sua

O teste já está no seu plano se há um sebo no caminho de casa, uma estante de livros herdados ou um exemplar usado esperando a vez.

O roteiro:

1. Antes de ler, anote a lápis na contracapa a página em que estava o marcador do dono anterior.

2. Tire o marcador e guarde-o no fim do livro, para não ver o número durante a leitura.

3. Leia no seu ritmo e use o seu próprio marcador a cada sessão.

4. Quando passar da página do dono anterior, escreva a data ao lado do número anotado.

5. Se parar antes dela, anote a sua página e o motivo em uma linha.

O passo 1 transforma uma pista solta em número. A página fica registrada mesmo que o marcador se perca, e o lápis não estraga o exemplar para o próximo leitor.

O passo 2 tira a pressão do caminho. Quem lê de olho no número tende a correr para alcançá-lo, e a leitura apressada também é uma forma de parar.

O passo 3 separa as duas leituras. O marcador antigo guarda a parada do outro; o seu guarda a sua, sessão por sessão.

A página do dono anterior funciona como placa de estrada: mostra onde alguém fez a curva.

O passo 4 marca o momento em que a sua leitura entra num território que o outro não percorreu. A data ao lado do número vira um pequeno registro do seu avanço.

O passo 5 é o mais útil quando o livro empaca. Escrever o motivo em uma linha, como sono, capítulo arrastado ou falta de tempo, mostra se a parada veio do livro ou da rotina.

Vale repetir o teste com dois ou três exemplares usados. Se a sua parada coincide sempre com a do dono anterior, o problema costuma estar no trecho do livro; se a sua parada cai sempre no mesmo dia da semana, o problema está na agenda.

Teste hoje: pegue um livro usado da estante, anote a página do marcador e leia 20 minutos. Ao fechar, escreva a sua página ao lado do número do dono anterior. O resultado esperado: em uma semana você sabe se passa do ponto em que o outro largou ou se para no mesmo capítulo que ele.

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, qual foi a causa da morte de Frank Doel, o livreiro da Marks & Co., falecido em dezembro de 1968?

AInfarto
BPneumonia
CPeritonite
DAcidente de carro

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