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Helene Hanff, escritora e roteirista nascida na Filadélfia em 1916, morava num apartamento pequeno em Nova York em 1949 e não achava ali, a preço possível, os clássicos ingleses que queria ler. Viu um anúncio da Marks & Co., livraria de livros usados no número 84 da Charing Cross Road, em Londres, e mandou uma carta com a lista de pedidos.
Quem respondeu foi Frank Doel, livreiro da casa. Ele achou boa parte dos títulos, mandou os volumes pelo correio e informou o valor em dólar. A troca começou assim, comercial e formal, e durou 20 anos.
A Inglaterra do pós-guerra ainda vivia sob racionamento de comida. Hanff passou a mandar pacotes com carne enlatada, ovos desidratados e presunto para os funcionários da livraria. As cartas começaram a chegar de outras mãos também: colegas de Doel e a mulher dele, Nora, escreveram para agradecer.
As cartas mostram a mudança de tom. Hanff começa tratando o livreiro com cerimônia e, com o passar dos anos, passa a provocá-lo pelos atrasos, pelas edições que ele não encontrava e pela lentidão do correio.
O exemplar que já foi lido
Hanff tinha gosto declarado por livro com marca de uso. “Adoro dedicatórias na folha de rosto e notas na margem”, escreveu ela numa das cartas reproduzidas em “84, Charing Cross Road” (1970). Na mesma carta, ela diz gostar de virar páginas que outra pessoa já virou e de ler trechos que alguém, muito tempo antes, fez questão de apontar.
Para Hanff, o rastro do leitor anterior funcionava como companhia. O livro chegava ao apartamento de Nova York já conversado, com a leitura de alguém guardada nas margens.
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Num livro usado, o texto é igual ao de qualquer exemplar; o que muda é o rastro de quem leu antes.
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Das cartas ao livro
Frank Doel faleceu em dezembro de 1968, de uma peritonite (inflamação grave da membrana que reveste o abdome). Hanff recebeu a notícia por carta da própria livraria, no começo de 1969. A Marks & Co. fechou as portas em 1970.
Hanff reuniu as cartas e as publicou em 1970 pela Grossman Publishers, de Nova York. O livro ganhou leitores dos dois lados do Atlântico, virou peça de teatro em Londres em 1981 e filme em 1987, com Anne Bancroft e Anthony Hopkins, lançado no Brasil como “Nunca Te Vi, Sempre Te Amei”.
Ela só pisou em Londres em 1971, já sem o livreiro, para divulgar a edição inglesa. A viagem rendeu outro livro, “The Duchess of Bloomsbury Street” (A duquesa da Bloomsbury Street), de 1973. No endereço da antiga livraria há hoje uma placa redonda que lembra a correspondência.
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