|
|
Mais Esperto que o Diabo, e o tamanho da fonte
O clássico de Napoleon Hill custa menos que a média do varejo e tem 176 páginas, e a ficha conta quantas palavras cabem nelas.
|
O livro fino na régua do preço por palavra
|
| ▼ |
| |
|
Em 1938, um ano depois de lançar o livro que o tornaria conhecido no mundo inteiro, um escritor americano terminou um segundo manuscrito e guardou. A mulher dele leu os originais, achou que a reação das igrejas cairia sobre a família, e o texto foi parar num cofre.
O título é Mais Esperto que o Diabo, de Napoleon Hill, escrito em 1938 e publicado só em 2011 pela fundação que leva o nome do autor, com notas de Sharon Lechter. No Brasil saiu pela CDG em 2014, e a brochura de 176 páginas segue circulando na lista de mais vendidos.
O objeto é fino. Cento e setenta e seis páginas, contra as quase trezentas da brochura média da mesma prateleira de negócios e autoajuda.
A etiqueta acompanha o tamanho, e é ela que põe o livro na lista. Um exemplar novo circula por volta de R$ 30, enquanto a brochura média da prateleira pede de R$ 55 a R$ 70.
Metade do preço parece decisão fácil, e é aí que a comparação escorrega. Livro não se compara por etiqueta, se compara por miolo, e miolo se mede em palavras.
Página não é unidade de conteúdo, é unidade de papel. Margem larga, entrelinha aberta e corpo de fonte grande esticam o mesmo texto por dezenas de páginas a mais, e o leitor paga pelo volume que enxerga na mão.
Por causa disso a ficha de hoje conta palavras. Quantas cabem nas 176 páginas, quanto custa cada mil delas, e como esse número fica ao lado do que o varejo cobra por mil palavras num livro de tamanho comum.
A resposta separa duas coisas que a vitrine mistura. Um livro pode cobrar menos pelo que entrega, ou pode entregar menos e cobrar proporcional ao que entregou.
Antes da conta vem o texto, porque preço por palavra não decide nada se a palavra não merecer a leitura. E o miolo deste tem a tese mais estranha da prateleira de autoajuda.
Começamos pelo que está escrito, e a régua entra depois.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I O Livro em 3 Minutos
O interrogatório e os 98 em cada 100
|
|
O miolo não é ensaio nem manual. É um interrogatório escrito em forma de diálogo, com o autor fazendo as perguntas e um interlocutor que ele chama de Diabo respondendo, obrigado a dizer a verdade sobre como controla gente.
A confissão central aparece nas primeiras respostas e não muda até o fim: a maior parte das pessoas não decide a própria vida, apenas aceita o que aparece na frente.
O nome que o livro dá para esse estado é deriva. Quem está em deriva pega o emprego que apareceu, repete a opinião que ouviu em casa e adia a decisão até ela ser tomada por outra pessoa.
O número da confissão é o que ficou famoso. O interlocutor afirma controlar 98 em cada 100 pessoas, e deixa 2 de fora, os que sabem o que querem e vão atrás com um plano escrito.
O mecanismo tem nome próprio no texto: ritmo hipnótico. Todo hábito repetido tempo suficiente se fixa e passa a rodar sozinho, e a lei não pergunta se o hábito é bom ou ruim antes de fixar.
|
O hábito deixa de ser o que você faz. Depois de repetido tempo suficiente, ele vira o que faz você.
|
As ferramentas de controle listadas são quatro, e nenhuma é sobrenatural. O medo em suas formas básicas, a escola que premia obediência acima de pergunta, o púlpito que vende susto e o adulto que quebra a vontade da criança antes dos dez anos.
Essa lista de quatro é a página que mandou o manuscrito para o cofre em 1938.
A saída proposta ocupa a segunda metade e cabe em sete princípios: objetivo definido, domínio de si, aprender com a adversidade, controle das influências do ambiente, tempo, harmonia e cautela.
O primeiro carrega os outros seis. Objetivo definido, no vocabulário do livro, não é sonho nem vontade: é uma frase escrita, com prazo e com preço, que a pessoa consegue repetir sem consultar papel.
O segundo é o que dá trabalho. Domínio de si começa por escolher o que entra na cabeça, e leitura, conversa e companhia entram na mesma conta, porque as três repetem todo dia.
A crítica de hoje tem endereço certo. O interlocutor é um recurso retórico, o número de 98 em cada 100 não vem de pesquisa nenhuma, e a edição chega com notas que puxam o texto de 1938 para o vocabulário de coaching.
O que ele entrega em uma linha: um nome e um mecanismo para o hábito de adiar decisão, com sete freios práticos contra ele. O que ele não entrega: dado, fonte e contraditório, porque a forma escolhida foi a confissão, e confissão não pede prova.
|
|
|
|
|
II A Ficha
Quantas palavras cabem em 176 páginas
|
|
176 páginas, perto de 48 mil palavras e uma etiqueta de R$ 30. A ficha de hoje divide o preço pelo miolo, e não pela capa, e põe o resultado ao lado do que o varejo cobra por mil palavras.
|
O preço primeiro, com as quatro etiquetas à vista. A brochura nova circula entre R$ 25 e R$ 45, o usado aparece de R$ 12 a R$ 25 nos sebos, o arquivo digital fica entre R$ 15 e R$ 30 e o audiolivro entra pelas assinaturas de R$ 20 a R$ 30 por mês, consultado em 14/08/2026.
As páginas depois, e aqui a capa não engana: são 176 na brochura brasileira, e a contagem já inclui as notas da edição comentada, impressas junto ao texto.
A conta de palavras é onde a etiqueta perde a inocência. Página de brochura brasileira com texto corrido comporta entre 250 e 320 palavras, e este miolo é diálogo, com pergunta e resposta alternando e linha em branco entre as falas.
O diálogo derruba a média para perto de 270 palavras por página. Multiplicado pelas 176 páginas, o miolo fica em torno de 47 mil e meio, que arredonda para 48 mil palavras.
O audiolivro confere a conta por outro caminho. A narração passa de cinco horas, e a 160 palavras por minuto cinco horas e meia dão perto de 52 mil palavras, com a diferença por conta da introdução e das notas lidas junto.
O tempo de leitura sai do mesmo número. Um leitor de ritmo médio, na casa das 240 palavras por minuto, atravessa as 48 mil em cerca de 3 horas e 20 minutos, uma tarde de sábado.
|
O medo é a ferramenta de um diabo feito pelo homem. A fé em si mesmo é a arma que derrota esse diabo.
Napoleon Hill, Mais Esperto que o Diabo, 1938
|
Agora a divisão que interessa. R$ 30 divididos por 48 mil palavras dão R$ 0,63 por mil palavras lidas.
A régua de comparação é a brochura média da mesma prateleira: perto de 288 páginas, cerca de 85 mil palavras e R$ 55 na etiqueta, o que dá R$ 0,65 por mil palavras.
Os dois números quase se encostam, e é essa a resposta da ficha. A etiqueta cai 45% em relação à média, e o miolo cai 44%. O desconto não é desconto, é porção menor cobrada em proporção.
O preço da hora repete o desenho. R$ 30 por 3 horas e 20 custam R$ 9 por hora de leitura, e a brochura média de R$ 55 por quase 6 horas custa R$ 9,30, o mesmo patamar com um terço do tempo de companhia.
A régua da ficha: pelo preço por palavra, o exemplar novo custa o que o varejo cobra, sem barganha nenhuma; quem quer pagar barato de verdade neste título precisa do usado de sebo ou da assinatura que já está na fatura.
|
|
|