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Moby Dick e o capítulo 32 numa mesa de biblioteca

A tabela das baleias trava a maioria dos leitores. Uma hora com ela, emprestada, mostra se as outras páginas merecem a compra.

Exemplar antigo de Moby Dick aberto na tabela das baleias sobre uma mesa de biblioteca, com papel e lápis ao lado.

Uma tarde, um capítulo, uma decisão

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Um arpão de ferro forjado, um mapa da ilha de Nantucket, uma tabela de baleias dividida por tamanho de livro. Os três cabem no mesmo romance de 1851, e só o terceiro costuma mandar o leitor de volta para a prateleira.

O romance é “Moby Dick”, de Herman Melville. O arpão e o mapa estão nas primeiras páginas, quando o narrador Ishmael chega ao porto baleeiro e procura um navio. A tabela está no capítulo 32, chamado “Cetologia”, a palavra para o estudo das baleias.

O livro tem 135 capítulos e um epílogo. Na maioria das edições brasileiras passa de 600 páginas. Quem começa embalado pela primeira frase, uma das mais citadas da literatura, segue bem por trinta capítulos de tavernas, sermões e amizade improvável entre Ishmael e o arpoador Queequeg.

Aí chega o capítulo 32. A trama para. O navio já está no mar, o capitão já mostrou a perna de marfim, e o narrador decide gastar páginas classificando baleias como se fossem livros numa biblioteca.

Os capítulos de cetologia voltam ao longo do romance. Há um sobre a cabeça do cachalote, outro sobre a cauda, outro sobre pinturas de baleias, outro sobre o óleo. Para muita gente, é ali que a leitura morre devagar, com o marcador parado no mesmo ponto por meses.

A compra do volume grosso nasce de um impulso conhecido: ter o clássico na estante. Depois, o livro fica como enfeite, e a culpa de não terminar cresce a cada mudança de casa.

Existe um caminho mais barato. Uma biblioteca pública empresta o romance de graça, e o capítulo 32 cabe numa tarde. Quem atravessa a tabela das baleias com gosto vai atravessar o resto. Quem sofre ali descobre a resposta sem gastar com o livro.

Antes do teste, vale saber o que acontece no romance inteiro, do porto ao último mergulho, em três minutos de leitura.

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I  O Livro em 3 Minutos

Um capitão e uma baleia branca

Ishmael é um rapaz sem dinheiro que embarca num baleeiro para fugir do tédio da terra. Em New Bedford, divide a cama de uma pensão com Queequeg, um arpoador dos mares do Sul coberto de tatuagens. Os dois viram amigos e embarcam juntos no Pequod, que sai de Nantucket no Natal.

O dono do navio fala pouco do capitão. Ahab só aparece no convés dias depois da partida. Tem uma perna feita de osso de baleia, presa num furo aberto no assoalho, e uma cicatriz que desce do cabelo até o pescoço.

Numa manhã, Ahab reúne a tripulação e prega uma moeda de ouro no mastro. Ela vai para o primeiro homem que avistar a baleia branca de testa enrugada e mandíbula torta. É Moby Dick, o cachalote que arrancou a perna dele numa viagem anterior.

A caça vira obsessão

O imediato Starbuck, um homem religioso e cauteloso, entende o plano antes dos outros. O navio saiu para buscar óleo e lucro para os donos, e o capitão quer vingança contra um animal. Starbuck protesta, mas a tripulação grita junto com Ahab.

O Pequod cruza o Atlântico, contorna o cabo da Boa Esperança e entra no Índico e no Pacífico. No caminho encontra outros navios. Ahab faz a mesma pergunta a cada capitão: viu a baleia branca? Um deles perdeu o braço para ela. Outro perdeu o filho.

“Deus me livre de terminar qualquer obra. Este livro inteiro é só um rascunho, ou melhor, o rascunho de um rascunho.”

Herman Melville, “Moby Dick”, capítulo 32, 1851.

A tabela das baleias é o narrador avisando, no meio da caça, de qual livro se trata: um mundo inteiro, não só uma perseguição.

Três dias no fim

A baleia aparece perto da linha do equador. A caça dura três dias. No primeiro, Moby Dick parte um bote ao meio. No segundo, arrasta o arpoador Fedallah preso nas cordas. No terceiro, investe contra o casco do Pequod.

O navio afunda com quase todos. Ahab some no mar, enroscado na própria linha do arpão. Ishmael sobrevive agarrado a um caixão que Queequeg mandou fazer quando adoeceu e que virou boia salva-vidas. Um navio chamado Rachel, que procurava os filhos perdidos do capitão, recolhe o narrador.

 
 

II  A Ficha

Folio, octavo e duodécimo

A ficha do romance:

Título originalMoby-Dick; or, The Whale
Primeira edição1851, Londres e Nova York
Capítulos135 e um epílogo
Capítulo da tabela32, Cetologia
Páginasmais de 600 em português
Vendas em vida do autorcerca de 3 mil exemplares
Na biblioteca públicagrátis

A primeira edição saiu em Londres em outubro de 1851, com o título “The Whale” e sem o epílogo. Um mês depois, a editora Harper & Brothers lançou em Nova York a versão com o nome da baleia na capa. A crítica foi dura, e o livro quase sumiu das lojas.

O que tem no capítulo 32

O capítulo abre com uma promessa curiosa: organizar todas as baleias conhecidas, uma tarefa que o narrador admite ser grande demais para ele. Ishmael diz que a baleia é um peixe que esguicha e tem a cauda na horizontal. A ciência da época já discordava, e ele cita os naturalistas só para rir deles.

A classificação usa o tamanho dos livros impressos. As baleias grandes, como o cachalote e a baleia-franca, ficam no “Folio”, o formato de página inteira. As médias, como a orca, ficam no “Octavo”. As pequenas, como o boto, ficam no “Duodécimo”, o livrinho de bolso.

Cada tipo ganha um verbete curto com o tamanho, o óleo que rende e o jeito de nadar. O tom mistura enciclopédia, piada e sermão. Há trechos de frase curta e técnica, e outros de imagem longa, quase poesia.

Quem ri da baleia classificada como livro de bolso já leu o capítulo do jeito certo.

Por que tantos leitores param ali

O capítulo chega cedo, logo depois da primeira aparição de Ahab, quando a curiosidade sobre o capitão está no ponto mais alto. A trama congela por mais de dez páginas, e o leitor sente que o autor trocou de assunto sem avisar.

O livro guarda outros capítulos do mesmo tipo, sobre a cabeça, a cauda, o esqueleto e o óleo. Eles somam dezenas de páginas espalhadas pelo romance. Quem não suporta o primeiro vai sofrer em todos.

Melville trabalhou anos em baleeiros, inclusive no Acushnet, que saiu de Massachusetts em 1841. A cetologia é o diário de ofício dele, e o romance não existe sem ela.

O reconhecimento veio tarde. Nos anos 1920, críticos americanos redescobriram o livro, e as escolas passaram a ensinar o romance como um dos maiores do país. As tabelas, antes vistas como defeito, viraram a marca do estilo.

 

Quem banca a edição de hoje

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III  Já Está no Seu Plano

Uma tarde e uma página

O teste já está no seu plano se você tem uma carteirinha de biblioteca pública ou uma hora livre perto de uma. Muitas bibliotecas municipais fazem o cadastro na hora, com documento e comprovante de endereço.

O roteiro da tarde:

1. Peça “Moby Dick” no balcão e escolha uma tradução completa, sem a palavra “adaptação” na capa.

2. Leia o capítulo 1, que tem poucas páginas, para entrar no tom do narrador.

3. Pule direto para o capítulo 32 e leia até o fim, sem celular na mesa.

4. Marque num papel cada parágrafo em que você sorriu, aprendeu algo ou quis reler uma frase.

5. Ao fechar o capítulo, conte as marcas e anote a hora em que terminou.

O passo 1 evita o erro mais comum. Edições adaptadas cortam justamente a cetologia, e o teste perde o sentido sem o capítulo inteiro.

O passo 2 aquece a leitura. A primeira página mostra o humor seco de Ishmael, e esse humor é o mesmo que segura a tabela das baleias.

O capítulo 32 numa tarde de biblioteca custa zero e responde se as outras quinhentas páginas merecem lugar na sua casa.

O passo 3 isola a parte difícil. Ler os trinta capítulos do meio antes do teste daria outra medida, a da trama, e a trama quase todo leitor aguenta.

O passo 4 troca impressão por número. Uma sensação de tédio no meio da tarde engana, e as marcas no papel mostram quantos trechos prenderam a atenção.

O passo 5 dá a medida do fôlego. Se o capítulo levou mais de uma hora, o ritmo do resto do livro vai pedir sessões curtas, de dez a quinze páginas por dia, e não maratonas de fim de semana.

Se a contagem passar de cinco marcas, o romance vale o empréstimo inteiro, e talvez a compra de uma edição boa para reler. Abaixo de duas, devolva o livro sem culpa e escolha outro clássico do mesmo século.

Entre duas e cinco marcas, a decisão fica no meio. Vale tentar mais um capítulo de cetologia, o 68, sobre a pele do cachalote, antes de desistir. Se ele também passar sem nenhuma marca, a estante pode ficar sem o volume, e a biblioteca segue com ele à disposição.

Teste nesta semana: leia o capítulo 32 numa mesa de biblioteca, com papel e lápis ao lado. Conte as marcas. Com cinco ou mais, leve o livro emprestado para casa e leia dez capítulos por semana. Antes de devolver, procure no posfácio a história do naufrágio real.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Qual navio, afundado por um cachalote no Pacífico em 1820, deu a Melville o desfecho do Pequod?

 
 
Quiz da edição

No romance 'Moby Dick', em qual capítulo Ishmael organiza as baleias por tamanho de livro, do Folio ao Duodécimo?

ACapítulo 1
BCapítulo 32
CCapítulo 99
DCapítulo 135

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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