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O Hobbit de leilão e o de cabeceira contam a mesma história

A primeira tiragem de 1937 teve mil e quinhentos exemplares. Três sinais separam o livro de guardar do livro de ler.

Exemplar antigo de O Hobbit com sobrecapa ilustrada sobre uma mesa.

A primeira tiragem saiu em setembro de 1937

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Um mapa com runas, uma sobrecapa em verde, azul e preto, um parecer escrito por um menino de dez anos. Os três estão na origem do livro que a editora Allen & Unwin lançou em Londres no dia 21 de setembro de 1937.

O livro se chamava The Hobbit, or There and Back Again (O Hobbit, ou Lá e de Volta Outra Vez). O autor era um professor de língua inglesa antiga em Oxford, e o próprio professor desenhou o mapa, a capa e as ilustrações em preto e branco.

A editora apostou pouco. A primeira tiragem teve mil e quinhentos exemplares, um número modesto para livro infantil na Inglaterra da época, e a loja cobrava sete xelins e seis pence por cada um.

Os mil e quinhentos sumiram antes do Natal. A editora mandou rodar uma segunda impressão em dezembro, já com quatro pranchas coloridas, e a partir daí o livro nunca mais saiu de catálogo.

Quase noventa anos depois, a primeira impressão virou peça de leilão. Exemplares com a sobrecapa original passam das dezenas de milhares de libras nas grandes casas de Londres, e um exemplar com dedicatória do autor ultrapassou cem mil libras na Sotheby's.

Do outro lado, a mesma história está à venda em qualquer livraria brasileira, em edição de bolso, capa dura ilustrada ou ebook. O texto que o colecionador guarda em caixa de acrílico é, palavra por palavra, quase o mesmo que o leitor carrega na mochila.

Quase, porque o livro mudou por dentro em 1951, e essa mudança separa a edição de estudo da edição de leitura. O comprador que não sabe a diferença corre dois riscos: pagar preço de raridade por uma reimpressão comum, ou deixar de ler por achar que só a edição cara vale a pena.

A distinção cabe em três sinais na página de créditos e na sobrecapa. Antes deles, vale entender por que um livro infantil escrito num verso de prova virou o bilhete de entrada de uma das maiores sagas do século.

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I  O Livro em 3 Minutos

Um parecer de dez anos

A primeira frase do livro nasceu num verso de folha de prova. Tolkien corrigia exames de alunos em Oxford, no começo dos anos 1930, quando escreveu numa página em branco: numa toca no chão vivia um hobbit.

Ele contou depois, numa carta de 1955 ao escritor W. H. Auden, que não sabia o que era um hobbit quando escreveu a linha. A história cresceu aos poucos, lida em voz alta para os quatro filhos, e passou anos guardada sem final.

O caminho até a editora

Uma ex-aluna, Elaine Griffiths, conhecia o manuscrito e comentou o texto com Susan Dagnall, funcionária da Allen & Unwin. Dagnall pediu emprestado, leu e convenceu Tolkien a terminar os últimos capítulos em 1936.

O dono da editora, Stanley Unwin, tinha um método próprio para livro infantil. Ele entregava o manuscrito ao filho Rayner, então com dez anos, e pagava pelo parecer escrito do menino.

O parecer de Rayner sobreviveu. Ele escreveu que Bilbo Bolseiro era um hobbit que morava na sua toca e nunca saía para aventuras, até que o mago Gandalf e os anões o convenceram a ir. Fechou dizendo que o livro servia para crianças de cinco a nove anos.

Um menino de dez anos aprovou o livro que abriria a porta de O Senhor dos Anéis.

O que a história conta

A trama segue Bilbo, um hobbit acomodado, convocado por treze anões e por Gandalf para recuperar o tesouro tomado pelo dragão Smaug na Montanha Solitária. No meio da viagem, ele encontra trolls, elfos, aranhas gigantes e uma criatura chamada Gollum.

No escuro de uma caverna, Bilbo acha um anel que deixa quem o usa invisível. Na edição de 1937, o anel é só um objeto mágico útil para escapar de apuros, e Gollum até promete entregá-lo como prêmio num jogo de adivinhas.

O tom é de história contada ao pé da cama. O narrador conversa com o leitor, faz piada, interrompe a ação para explicar costumes de hobbit, e a aventura termina com Bilbo de volta à toca, mais rico e menos respeitável aos olhos dos vizinhos.

O livro que pediu continuação

O sucesso de 1937 fez a editora pedir mais hobbits. Tolkien levou dezessete anos para entregar a continuação, e no caminho percebeu que o anel de Bilbo precisava pesar muito mais do que pesava no livro infantil.

 
 

II  A Ficha

Mil e quinhentos exemplares

O colecionador paga pela impressão de 1937; o leitor recebe a mesma aventura em qualquer edição.

A ficha do livro:

Título originalThe Hobbit, or There and Back Again
Lançamento21 de setembro de 1937
Editora originalGeorge Allen & Unwin
Primeira tiragemmil e quinhentos exemplares
Segunda edição revisada1951
Editora atual no BrasilHarperCollins Brasil
Preçovaria por edição

A ficha resume a vida do livro. Os detalhes explicam por que a primeira impressão vale tanto e por que a de leitura custa pouco.

Por que a primeira impressão rareou

A tiragem pequena explica parte do preço. A outra parte veio da guerra: em 1942, um bombardeio alemão sobre Londres destruiu o depósito da editora, e com ele sumiram estoques de livros e chapas de impressão.

Livro infantil também sofre na mão de criança. Muitos dos mil e quinhentos exemplares de 1937 foram lidos, rabiscados, emprestados e perdidos, e a sobrecapa de papel, a parte mais frágil, raramente chegou inteira até hoje.

O que marca a primeira impressão

A folha de rosto traz o selo da George Allen & Unwin e o ano de 1937, sem menção a segunda impressão. As guardas, as folhas coladas na capa, trazem o mapa desenhado por Tolkien.

As ilustrações são todas em preto e branco. As quatro pranchas coloridas só entram a partir da segunda impressão, de dezembro, e quem vê cor no miolo já sabe que o exemplar não é o primeiro.

A sobrecapa tem um erro famoso. Na aba de trás, o nome do escritor Lewis Carroll aparece trocado como Dodgeson, em vez de Dodgson, e muitos exemplares saíram com a letra a mais corrigida à mão, a tinta.

A mudança de 1951

Para encaixar O Hobbit na saga que vinha, Tolkien reescreveu o capítulo do encontro com Gollum. Na versão de 1951, a criatura não entrega o anel de bom grado, e o objeto ganha o peso sombrio que o leitor de O Senhor dos Anéis conhece.

Para o colecionador, as edições anteriores a 1951 guardam o texto original. Para o leitor, a versão de 1951 é a que conversa com a saga inteira, e é ela que circula nas livrarias.

A diferença aparece em poucas páginas do quinto capítulo, Adivinhas no Escuro. O resto do livro, dos trolls de pedra à batalha dos cinco exércitos, chega ao leitor de hoje quase igual ao que o menino Rayner leu em 1936, com as mesmas canções dos anões e o mesmo dragão vaidoso.

 

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III  Já Está no Seu Plano

Ler ou guardar

A separação já está no seu plano se você tem O Hobbit em casa, herdou livros de família ou passa por sebo no fim de semana. Ela pede o exemplar na mão e dois minutos.

O roteiro, com o livro aberto:

1. Abra na folha de rosto e procure o nome da editora e o ano.

2. Vire a página e procure a linha de impressão nos créditos.

3. Folheie o miolo e veja se há ilustração colorida.

4. Confira a sobrecapa, se ela existir, e procure a aba de trás.

5. Se o exemplar tem editora e ano de impressão recentes, leve para a cabeceira.

O passo 1 resolve a maior parte dos casos. Qualquer exemplar com HarperCollins, Martins Fontes ou outra editora brasileira na folha de rosto é livro de leitura, e o valor dele está no texto.

O passo 2 separa as impressões. Uma linha com a palavra reimpressão, ou uma sequência de números que não começa em 1, indica exemplar de tiragem comum, mesmo quando a capa imita a de 1937.

O passo 3 protege contra um engano comum. Muitas edições comemorativas reproduzem a sobrecapa verde e azul de Tolkien, e o leitor desatento acha que tem nas mãos uma peça antiga.

O passo 4 serve só para quem encontrou um exemplar inglês velho. Sobrecapa com o erro na aba de trás merece uma avaliação de livreiro especializado antes de qualquer venda ou compra.

O livro de guardar se reconhece pela folha de rosto; o de ler, pelo uso.

A edição de leitura tem vantagem própria. Ela traz o texto de 1951, o mapa reproduzido com legenda em português e, nas edições recentes, a tradução de Reinaldo José Lopes, que adaptou nomes e canções para o leitor brasileiro.

O exemplar de colecionador pede caixa, luz controlada e mão limpa. O exemplar de leitura pede lápis na margem, orelha dobrada no capítulo de Gollum e empréstimo para quem nunca viajou com Bilbo.

Teste hoje: pegue o livro mais antigo da sua estante, abra na página de créditos e anote a linha de impressão. Se o primeiro número for maior que 1, o livro é de ler, e a meta da semana é chegar ao terceiro capítulo dele.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quanto Stanley Unwin pagou ao filho Rayner pelo parecer que aprovou O Hobbit?

 
 
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