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O livro de 501 perguntas chegou a 1.019

O Livro dos Espíritos cresceu entre 1857 e 1860. O sumário da sua edição diz qual versão está na estante.

Exemplar de O Livro dos Espíritos aberto no sumário, com marcador de papel e lápis ao lado do abajur.

De 501 perguntas em 1857 a 1.019 em 1860

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Um volume de capa azul, um marcador de papel na página 1, um lápis apontado ao lado do abajur. Os três servem a uma leitura feita em pedaços pequenos, e o volume é O Livro dos Espíritos, publicado em Paris em abril de 1857.

O livro tem um formato raro entre os clássicos. Em vez de capítulos corridos, ele avança por perguntas numeradas, cada uma seguida de uma resposta curta. A primeira pergunta é direta: “Que é Deus?”. A resposta ocupa uma linha.

Quem pega o livro numa livraria hoje encontra perto de mil perguntas. Quem consulta a história da obra encontra outro número, bem menor, na primeira tiragem. A diferença entre os dois não é erro de catálogo. É uma reescrita feita pelo próprio organizador três anos depois do lançamento.

O organizador assinou como Allan Kardec, pseudônimo do professor francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, nascido em Lyon em 1804. Antes do livro, ele escrevia manuais de gramática e aritmética para escolas. O jeito de professor aparece na obra inteira: pergunta, resposta, comentário, próxima pergunta.

Esse formato tem uma vantagem prática pouco comentada. Um livro dividido em perguntas curtas aceita uma leitura picada sem perder o fio, porque cada número começa e termina em si mesmo. Dá para ler dez à noite e retomar no dia seguinte sem reler a página anterior.

Tem também uma armadilha. O leitor que compra uma edição barata, de sebo ou de banca, pode estar com uma tradução antiga, um resumo ou uma seleção, e só descobre lá pela metade, quando a numeração salta ou para cedo demais.

O sumário resolve a dúvida em um minuto. O último número da última parte diz se a edição na sua mão é a completa, a de 1860, a mesma usada como base pelas traduções brasileiras mais difundidas.

Antes de abrir o sumário, vale entender como o livro saiu de 501 perguntas para mais de mil, e o que mudou na estrutura entre uma edição e outra.

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I  O Livro em 3 Minutos

Do caderno de 1857 à obra de 1860

A primeira edição saiu em 18 de abril de 1857, em Paris, num volume de duas colunas por página. Trazia 501 perguntas numeradas, com as respostas atribuídas pelo organizador a espíritos consultados em sessões com diferentes médiuns, as pessoas que, segundo a doutrina, servem de canal para essa comunicação.

O livro esgotou rápido. Rivail, já assinando Allan Kardec, decidiu não apenas reimprimir. Ele reorganizou o material, acrescentou perguntas, desdobrou respostas longas em várias menores e mudou a ordem dos assuntos.

A segunda edição apareceu em 1860, também em Paris. A numeração foi até 1.019. Essa é a versão definitiva, a que serviu de base para as edições seguintes em francês e para praticamente todas as traduções que circulam hoje.

Quatro partes no lugar de três

A edição refeita divide as perguntas em quatro partes. A primeira trata das causas primárias: Deus, os elementos gerais do universo, a criação. A segunda descreve o mundo espírita, com a origem dos espíritos, a reencarnação e a vida entre uma existência e outra.

A terceira parte reúne as leis morais, como a lei do trabalho, a de sociedade e a de justiça, amor e caridade. É a mais longa do livro e a mais citada em palestras e grupos de estudo.

A quarta parte, mais curta, fala de esperanças e consolações: as penas e os gozos futuros, o que a doutrina descreve como consequência das escolhas feitas em vida. Ela termina na pergunta 1.019, sobre o reino do bem na Terra.

A edição de 1860 é a obra que circula hoje; a de 1857 virou documento histórico.

Por que o formato pegou

O modelo de pergunta e resposta vinha dos catecismos e dos manuais escolares do século XIX, que Rivail conhecia bem como professor. O leitor da época estava acostumado a estudar assim, um ponto de cada vez.

O formato também favoreceu a tradução. Cada resposta curta podia ser vertida e conferida isoladamente. No Brasil, a tradução de Guillon Ribeiro, publicada pela Federação Espírita Brasileira, e a de J. Herculano Pires tornaram o livro um dos títulos de não ficção mais vendidos no país ao longo do século XX.

Nas prateleiras de hoje, o livro segue em catálogo por várias editoras, em edição de bolso, de capa dura e digital, quase sempre com a numeração de 1860.

A longevidade tem explicação simples. Um livro de perguntas soltas serve tanto a quem estuda a doutrina em grupo quanto a quem só tem curiosidade histórica sobre o espiritismo francês do século XIX. Os dois leitores abrem no mesmo número e leem a mesma resposta.

 
 

II  A Ficha

Os números do sumário

A ficha da obra:

Título originalLe Livre des Esprits
Primeira ediçãoParis, 18 de abril de 1857
Perguntas em 1857501
Edição refeitaParis, 1860
Perguntas em 18601.019
Partesquatro
OrganizadorAllan Kardec (H. L. D. Rivail)
Primeira pergunta“Que é Deus?”

A ficha mostra o salto. De uma edição para a outra, o livro dobrou de tamanho em número de perguntas, sem mudar o título nem o formato de diálogo.

Como conferir a sua edição

O teste é o sumário. Abra o índice no fim ou no começo do volume e procure a quarta parte. Se ela existe e a numeração termina em 1.019, a edição segue a versão de 1860.

Algumas edições trazem perguntas com letras ao lado do número, como 100a ou 257b. Elas são desdobramentos da mesma pergunta e não alteram a contagem final. O número que importa é o último.

Se o sumário parar bem antes de mil, ou se o livro tiver só três partes, você está com um resumo, uma seleção ou uma reprodução da primeira edição. Nenhuma das três substitui a obra completa para uma leitura de ponta a ponta.

O último número do sumário diz, em um minuto, qual livro está na sua mão.

O que muda na leitura

A versão completa tem respostas mais curtas do que a primeira, porque Kardec dividiu as longas. Para quem lê à noite, cansado, a resposta curta ajuda: cabe numa leitura de um minuto e deixa espaço para o comentário do organizador logo abaixo.

Os comentários também são marca da edição de 1860. Depois de muitas respostas vem um parágrafo em tipo diferente, assinado pelo organizador, que liga a resposta ao resto da obra. Quem pula esses parágrafos lê metade do livro.

Uma edição com notas do tradutor acrescenta uma camada a mais. As notas explicam termos franceses do século XIX e apontam onde a tradução escolheu uma palavra em vez de outra.

Na hora de escolher entre duas edições completas, compare as primeiras páginas das duas. A que traz a introdução e os prolegômenos do organizador, os textos de abertura antes da pergunta 1, está mais perto do volume de 1860. Algumas edições baratas cortam essas páginas para economizar papel.

 

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III  Já Está no Seu Plano

Dez perguntas antes de apagar a luz

A leitura já está no seu plano se você tem dez minutos antes de dormir e um exemplar da edição de 1860, impresso ou digital.

O roteiro da noite:

1. Abra o sumário e anote, na última página em branco, o número final da sua edição.

2. Marque a pergunta 1 com o marcador de papel e deixe o lápis dentro do livro.

3. Leia dez perguntas por noite, incluindo os comentários do organizador.

4. Antes de fechar, escreva na margem o número onde parou e uma palavra sobre a resposta mais marcante.

5. No fim de cada semana, some as perguntas lidas e compare com o número final anotado no passo 1.

O passo 1 evita a surpresa no meio do caminho. Com o número final à vista, você sabe desde a primeira noite o tamanho da jornada.

O passo 2 tira o atrito. O livro com o lápis dentro abre na página certa sem procura, e a leitura começa antes da vontade de desistir.

Dez perguntas por noite levam o livro inteiro em pouco mais de cem noites.

O passo 3 define a dose. Dez perguntas curtas cabem em dez minutos na maior parte do livro. Na terceira parte, das leis morais, algumas respostas pedem mais tempo, e vale manter o número mesmo quando a noite estica.

O passo 4 cria o rastro. A palavra na margem funciona como índice pessoal, e na releitura ela mostra quais respostas pararam você da primeira vez.

O passo 5 dá a medida do progresso. Com 1.019 perguntas, dez por noite somam 70 por semana e fecham o livro em cerca de 15 semanas.

Para quem prefere um ritmo mais lento, cinco perguntas por noite também funcionam. A conta dobra, mas o hábito se mantém, e o hábito diário pesa mais do que a velocidade.

Se uma noite falhar, não compense com vinte perguntas na seguinte. Retome as dez do ponto marcado na margem. A dose fixa protege a leitura do cansaço acumulado, e a conta das semanas continua valendo com uma noite a menos.

Teste hoje: abra o sumário, anote o número final e leia as perguntas de 1 a 10 antes de apagar a luz. Marque no relógio quantos minutos levou. O resultado esperado: entre oito e doze minutos, e um número escrito na margem para retomar na noite seguinte pela pergunta 11.

 
 
 

Quiz da edição

Quantas perguntas numeradas trazia a primeira edição de O Livro dos Espíritos, publicada em Paris em abril de 1857?

A301
B501
C701
D1.019

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