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O Pavão Misterioso voa inteiro em 32 páginas de cordel

O romance de José Camelo de Melo Rezende se lê de uma sentada. Três folhetos e um cronômetro medem a distância até o livro da cabeceira.

Folhetos de cordel pendurados num barbante de banca de feira, com capas em xilogravura.

Três tamanhos de folheto no barbante

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Um pavão de alumínio, uma janela de sobrado, um lenço molhado em clorofórmio. Os três cabem num folheto de 32 páginas, pendurado num barbante de banca de feira, e os três empurram uma das histórias de amor mais reimpressas da poesia popular brasileira.

O folheto de cordel (livreto de poesia popular impressa, vendido em feiras do Nordeste) sai em três tamanhos de gráfica: 8, 16 ou 32 páginas. A conta nasce do papel. Uma folha dobrada três vezes dá oito páginas, duas folhas dão dezesseis e quatro dão trinta e duas.

A palavra cordel veio de Portugal. Lá, cordel era o cordão esticado nas lojas e nas feiras onde os livretos ficavam pendurados por um prendedor. O cordão atravessou o Atlântico junto com os folhetos e grudou no gênero.

Nenhum dos três tamanhos pede marcador de página. O folheto foi pensado para uma sentada só: o poeta lia para a roda de gente na feira, parava no trecho mais tenso e vendia o resto ali mesmo, a quem quisesse saber como a história terminava.

Na cabeceira de muita gente, a cena é outra. Um romance de 400 páginas espera com o marcador parado no terceiro capítulo, e a culpa cresce a cada noite em que o celular ganha a disputa pela última meia hora do dia.

O folheto devolve uma sensação esquecida: começar e terminar uma história no mesmo dia, sem pausa. Ele não substitui o romance da cabeceira. Lembra ao leitor como é chegar à última página e fechar a capa com a trama resolvida.

A comparação pede três folhetos, um cronômetro e uma tarde livre. Antes dela, vale conhecer o folheto de 32 páginas mais famoso das bancas, o voo de um rapaz turco atrás de uma moça trancada num sobrado da Grécia, e a briga de autoria que acompanhou o livreto por décadas.

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I  O Livro em 3 Minutos

Um rapaz turco atrás de uma janela grega

A resposta de ontem

Quem compôs a cantiga dos dez soldadinhos de Christie?

O americano Septimus Winner compôs a cantiga em 1868, com o título Ten Little Injuns, para os palcos de variedades dos Estados Unidos. No ano seguinte, o inglês Frank Green adaptou a letra para os shows de menestréis britânicos, e foi essa versão, decorada por gerações de crianças inglesas, que Agatha Christie pendurou na parede de cada quarto da ilha.

O Romance do Pavão Misterioso saiu da cabeça do poeta paraibano José Camelo de Melo Rezende, por volta de 1923. Camelo vivia de cantar e vender folhetos pelas feiras da Paraíba e do Rio Grande do Norte, com a mala de livretos debaixo do braço.

A trama acompanha Evangelista, filho caçula de um comerciante rico da Turquia. Numa viagem à Grécia, ele vê de relance Creusa, filha de um conde, que o pai exibe na janela do sobrado uma única vez por ano e mantém trancada no resto dos dias.

Evangelista não consegue chegar perto da moça pela porta. Encomenda então ao engenheiro Edmundo uma máquina voadora disfarçada de pavão, movida a motor, capaz de subir em silêncio e pousar no telhado do sobrado.

A visita pelo telhado

À noite, o rapaz entra pelo alto da casa e chega ao quarto de Creusa. Quando ela ameaça gritar, ele usa um lenço com clorofórmio (líquido anestésico usado na época) para fazê-la dormir e sai antes de clarear.

Creusa conta ao pai as visitas do estranho. O conde arma guarda no sobrado, e o pavão escapa por pouco numa das noites seguintes. Na visita final, a moça aceita fugir: os dois sobem na máquina e voam para longe da janela vigiada, e o romance termina em casamento, o desfecho que o público da feira esperava ouvir.

O pavão chegou ao leitor de cordel décadas antes de avião virar paisagem no sertão. A máquina mistura conto de fadas e revista de mecânica, e o público tratava o voo como notícia de jornal contada em verso.

O pavão voa, pousa, foge e casa o casal em 32 páginas, sem um capítulo de espera.

A briga de autoria

A primeira edição conhecida circulou com a assinatura de João Melquíades Ferreira da Silva, outro poeta paraibano, que publicava folhetos para o mercado de Belém e do Recife. Camelo reclamou a autoria durante anos, em conversa e em verso.

Não sobrou manuscrito original para encerrar a disputa. Sem esse papel, a atribuição se apoia nos relatos de poetas da mesma geração e na leitura do estilo, e é a Camelo que os acervos de cordel creditam a obra hoje. Quem escreveu cada estrofe, linha por linha, ninguém consegue provar.

O folheto ganhou vida fora da banca. O cantor cearense Ednardo gravou Pavão Mysteriozo em 1974, e a canção abriu a novela Saramandaia, da TV Globo, em 1976, levando o pavão do sertão para a sala de jantar do país inteiro.

 
 

II  A Ficha

Uma folha dobrada três vezes

A medida do folheto vem da folha de papel, e a folha decide quanto tempo a história dura na mão.

A ficha do folheto:

ObraRomance do Pavão Misterioso
AutorJosé Camelo de Melo Rezende
Escritapor volta de 1923
Formatofolheto de 32 páginas
Estrofesextilha
Capaxilogravura
Preçovaria por banca

A ficha mostra um livro pequeno de propósito. Cada item dela foi pensado para a feira, onde o comprador lê de pé, paga pouco e leva para casa no bolso da camisa.

Oito, dezesseis, trinta e duas

Os poetas e gráficos do ofício separam os livretos pelo número de páginas. Os de 8 e 16 páginas trazem peleja, notícia ou história curta. Os de 24 a 32 páginas, ou mais, ganham o título de romance, palavra que no cordel indica história longa com enredo de aventura ou amor.

O Pavão Misterioso pertence ao grupo maior. Ainda assim, cabe dobrado num bolso e não passa de um caderno grampeado no meio, sem lombada e sem índice.

A estrofe e a capa

A sextilha (estrofe de seis versos, cada um com sete sílabas) domina o cordel. A rima cai no segundo, no quarto e no sexto verso, e o ritmo fixo ajuda o poeta a decorar a história e o ouvinte a acompanhar o enredo sem perder o fio.

A capa costuma trazer uma xilogravura (gravura entalhada num bloco de madeira e carimbada no papel). O desenho em preto chapado, feito à mão por gravadores de Juazeiro do Norte, no Ceará, e de Bezerros, em Pernambuco, virou marca visual do gênero.

Da feira ao patrimônio

O paraibano Leandro Gomes de Barros começou a imprimir folhetos no Recife nos anos 1890 e montou a primeira rede grande de venda do gênero. Os poetas que vieram depois, Camelo entre eles, herdaram dele o formato de banca.

Em 2018, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) registrou a literatura de cordel como patrimônio cultural imaterial do Brasil. O registro reconhece o folheto, a xilogravura e a venda em feira como um ofício só.

 

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III  Já Está no Seu Plano

Três folhetos e um cronômetro

A comparação já está no seu plano se você passa por feira de bairro, rodoviária do Nordeste, banca de mercado público ou loja de cordel nas capitais. Ela pede três folhetos de tamanhos diferentes e o cronômetro do celular, usado só para medir.

O roteiro da tarde:

1. Compre três folhetos: um de 8 páginas, um de 16 e um de 32, de preferência o Pavão Misterioso.

2. Sente num lugar sem tela por perto e deixe o celular virado para baixo, só com o cronômetro ligado.

3. Leia o folheto de 8 páginas do começo ao último verso e anote o tempo.

4. Repita com o de 16 e com o de 32, sem pausa entre um e outro.

5. Some os três tempos e escreva o total na contracapa do folheto maior.

O passo 1 pede o tamanho diferente de propósito. Com três números de página, o leitor percebe como o tempo cresce e onde a atenção começa a pesar.

O passo 2 protege a medição. Uma mensagem que chega no meio do folheto quebra a sentada e estraga o número, e o teste deixa de medir a leitura.

O passo 3 costuma surpreender. O verso de sete sílabas tem ritmo de conversa, e muita gente lê a sextilha murmurando, no compasso de quem ouvia o poeta na feira.

Ninguém precisa de uma semana para chegar à última página de uma história.

O passo 4 mostra a diferença entre os tamanhos. O romance de 32 páginas exige mais fôlego, mas ainda se resolve dentro de uma tarde, com começo, voo, fuga e casamento.

O passo 5 abre a comparação com a cabeceira. Com o total dos três folhetos na mão, a pergunta deixa de ser se você ainda sabe ler livros e passa a ser quantas páginas do romance parado caberiam no mesmo tempo.

Folheto de cordel custa pouco e circula de mão em mão. Depois da medição, vale emprestar os três a alguém da casa e comparar os tempos dos dois leitores. Quem lê mais devagar costuma ser quem repete os versos para ouvir a rima, e nenhum dos dois tempos está errado: o folheto foi feito para as duas maneiras de ler.

Teste hoje: leia os três folhetos em sequência, com o cronômetro ligado, e anote o total. Depois, abra o romance da cabeceira no marcador e leia pelo mesmo tempo. Conte as páginas lidas no romance. O resultado esperado: a atenção aquecida pelo cordel rende mais páginas nessa sentada do que o marcador andou na última semana inteira.

 
 
Quiz da edição

No romance, o que Evangelista usava para fazer Creusa dormir durante as visitas noturnas ao sobrado?

AUma poção preparada pelo engenheiro Edmundo
BUm lenço com clorofórmio
CUma música tocada pelo pavão de alumínio
DUm anel que a hipnotizava

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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