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O que as notas de rodapé de Dom Casmurro cobram
O romance de 1899 está de graça no Domínio Público do MEC e a edição escolar anotada sai por R$ 49,90: a ficha mede o preço das notas.
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De graça no MEC, R$ 49,90 anotado
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N o portal Domínio Público, mantido pelo Ministério da Educação, o arquivo de Dom Casmurro pesa pouco mais de 1 MB e custa zero. É o texto integral, os 148 capítulos, a mesma versão que a Livraria Garnier publicou no Rio de Janeiro em 1899. O download não pede cadastro, não pede cartão e não tem prazo de validade.
A três quadras dali, na mesa de clássicos da livraria, o mesmo romance tem etiqueta de R$ 49,90. É a edição escolar anotada, brochura, papel pólen, e dentro dela as palavras de Machado de Assis são exatamente as mesmas do arquivo gratuito. Nenhuma frase foi acrescentada ao texto do autor, nenhuma foi tirada.
O que muda é tudo o que veio depois da última linha do romance. A edição paga traz prefácio de um professor de literatura brasileira, cronologia da vida do autor, cerca de 240 notas de rodapé, glossário de termos do português de 1899, mapa do Rio de Janeiro daquela década e um caderno final com questões de vestibular resolvidas.
A obra está em domínio público no Brasil e qualquer editora pode imprimir e vender. Por causa dessa liberdade existem hoje mais de trinta edições do mesmo romance nas livrarias, com preços que vão de R$ 14,90 a R$ 129,00 pela mesma sequência de palavras.
A pergunta que quase ninguém faz antes de pagar é qual dessas camadas o leitor realmente vai usar. Quem lê por prazer costuma abrir três ou quatro notas no volume inteiro. Quem está em ano de vestibular abre quase todas, e o glossário resolve dez páginas de dicionário por noite.
Existe uma conta simples para separar os dois casos. Se o texto sai por zero, a etiqueta de R$ 49,90 não é o preço do romance, é o preço do aparato crítico. Dividido pelas 240 notas, cada uma sai por cerca de 21 centavos, e a decisão vira uma pergunta prática: você vai ler 240 notas?
Antes de fazer a conta, vale saber o que está dentro dos 148 capítulos, porque este é um romance em que o problema de leitura não é o vocabulário antigo, e sim quem está contando a história.
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I O Livro em 3 Minutos
Um narrador que pede para você julgar a esposa dele
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Bento Santiago escreve o livro já velho, sozinho numa casa em Engenho Novo que ele mandou construir igual à casa da infância, em Matacavalos. A intenção declarada nos primeiros capítulos é modesta: atar as duas pontas da vida e recuperar na velhice o menino que foi.
O que ele recupera é a promessa que a mãe fez de mandá-lo para o seminário, o namoro de quintal com Capitu, a vizinha da casa ao lado, e a manobra que os dois adolescentes armam com o agregado José Dias para desmontar essa promessa antes que ela se cumpra.
A segunda metade do romance é o casamento, o nascimento de Ezequiel e a suspeita que Bento constrói sozinha, ao notar que o filho se parece com Escobar, o melhor amigo dele desde o seminário. A partir daí o livro deixa de ser memória e vira processo, com o narrador acumulando indícios contra a própria mulher.
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Machado de Assis entregou ao leitor um narrador em causa própria e nenhuma testemunha. Tudo o que se sabe de Capitu chega filtrado pelo homem que a acusa, e ela não tem uma única linha fora do relato dele.
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Essa escolha técnica é o motivo de o romance seguir vivo depois de um século. A discussão sobre a traição de Capitu nunca terminou porque o texto foi construído para não terminar: as provas que Bento apresenta são olhares e coincidências, o tipo de indício que qualquer juiz descartaria.
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Capitu era Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem.
Machado de Assis, Dom Casmurro, 1899
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A frase aparece quando os dois ainda são adolescentes e volta a assombrar o narrador na velhice, porque ele nunca consegue decidir se descreveu uma qualidade ou um defeito. O romance inteiro cabe nessa hesitação de uma linha.
A construção ajuda quem tem pouco tempo. São 148 capítulos, muitos com menos de uma página, alguns com quatro parágrafos, e cada um fecha em conclusão ou em pergunta. O leitor moderno reconhece o ritmo de imediato, porque é o mesmo de uma sequência curta de posts encadeados.
O que o romance entrega: uma leitura curta em número de páginas, uma das melhores construções de narrador não confiável já escritas em qualquer idioma, e um assunto de mesa de bar garantido em qualquer roda que já tenha lido o livro.
O que ele cobra: o português de 1899 tem construções invertidas e vocabulário que saiu de circulação, as referências a ópera, latim e política do Segundo Reinado passam batidas sem apoio, e a ironia do narrador engana quem lê rápido demais. As três dificuldades são exatamente o que as notas de rodapé prometem resolver.
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II A Ficha
Zero reais de texto contra R$ 49,90 de aparato
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O texto integral sai por zero no portal do MEC. A edição escolar anotada custa R$ 49,90 e traz cerca de 240 notas, o que dá 21 centavos por nota de rodapé.
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As etiquetas primeiro, com a consulta feita em 02/09/2026 nas grandes livrarias e nos portais públicos:
| Domínio Público do MEC, texto integral | R$ 0,00 | | Brochura simples, sem notas | R$ 14,90 | | Ebook anotado | R$ 29,90 | | Edição escolar anotada, brochura | R$ 49,90 | | Edição crítica com fortuna crítica, capa dura | R$ 129,00 |
O tamanho ajuda a decisão e quase ninguém consulta antes. São cerca de 68 mil palavras em 148 capítulos, o que a 240 palavras por minuto dá 4 horas e 43 minutos de leitura corrida. Em 208 páginas, quinze páginas por noite fecham o romance em 14 dias, e vinte e cinco páginas por noite fecham em 9 dias.
Agora a conta de preço por mil palavras, que é onde a diferença entre as edições aparece sem enfeite:
| Domínio Público do MEC | R$ 0,00 por mil palavras | | Brochura simples | R$ 0,22 por mil palavras | | Ebook anotado | R$ 0,44 por mil palavras | | Edição escolar anotada | R$ 0,73 por mil palavras | | Edição crítica em capa dura | R$ 1,90 por mil palavras |
A linha de cima vale para sempre e não depende de contrato nenhum. Obra em domínio público não sai de catálogo, não expira, não some da biblioteca do aplicativo quando a editora renegocia, e pode ser copiada para quantos aparelhos o leitor tiver. É a única linha da lista com essas cinco garantias somadas.
Vale medir o que o aparato entrega, porque a palavra nota esconde coisas muito diferentes. Numa edição escolar anotada de clássico brasileiro, a divisão costuma ficar assim: metade das notas traduz vocabulário fora de circulação, um quarto explica referência histórica ou religiosa, e o quarto restante aponta ironia e ecos internos do texto.
O que a edição paga acrescenta, em ordem de utilidade real:
| Glossário e notas de vocabulário | dispensam o dicionário em cerca de 120 pontos do texto | | Notas de contexto histórico | explicam Segundo Reinado, seminário e ópera sem sair da página | | Prefácio e cronologia | montam o mapa da obra antes do primeiro capítulo | | Notas de leitura crítica | apontam onde o narrador está manipulando o leitor | | Caderno de questões | resolve prova de vestibular com gabarito comentado |
As duas primeiras linhas valem para qualquer leitor. As duas últimas valem para quem tem prova marcada, e é exatamente aí que a etiqueta de R$ 49,90 deixa de ser cara e vira barata: um cursinho cobra mais que isso por uma aula sobre o mesmo romance.
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A régua da ficha: o romance custa zero e o aparato custa R$ 49,90. Se a leitura é por prazer e o celular está ao lado para consultar uma palavra rara por capítulo, o arquivo do MEC resolve. Se existe prova, redação ou seminário no caminho, as notas se pagam na primeira semana.
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