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Uma balança de cozinha, uma fita métrica de costura, uma mochila de trabalho vazia. Os três objetos decidem, numa noite de domingo, se Os Pilares da Terra, de Ken Follett, vai sair de casa ou ficar esperando na mesa da sala.
A edição brasileira passa de mil páginas. É o volume que se carrega com as duas mãos, que não fica aberto sozinho na página marcada e que ocupa na estante o espaço de três romances comuns.
Follett era conhecido como autor de thrillers de espionagem, como O Buraco da Agulha, de 1978, quando resolveu escrever sobre a construção de uma catedral medieval. O romance saiu em 1989, no Reino Unido, e o próprio autor já contou em entrevistas que o editor dele via a troca de gênero como aposta arriscada.
A aposta virou o livro mais vendido da carreira dele. Em 2007, quase duas décadas depois do lançamento, a apresentadora Oprah Winfrey escolheu o romance para o clube de leitura do programa dela, e o calhamaço voltou às listas de mais vendidos dos Estados Unidos.
O volume assusta quem compra pela primeira vez. A dúvida prática aparece na primeira semana: levar o livro no ônibus, no metrô, na bolsa do trabalho, ou guardar a leitura para as noites em casa, com o exemplar apoiado na mesa e a luz certa.
A resposta sai de três medidas simples, feitas com o que existe em qualquer cozinha. O peso diz se o ombro aguenta o trajeto. A espessura da lombada diz se o livro cabe na bolsa ao lado da garrafa e do carregador. E o ritmo de leitura diz quantas semanas o exemplar vai passar viajando.
Sem essas contas, o roteiro costuma se repetir: o livro vai para a bolsa na segunda, volta para a mesa na quarta e acaba esquecido embaixo de uma pilha de correspondência, marcado na página 212.
A segunda faixa traz as medidas e as contas. Na primeira, a história de Kingsbridge em poucos minutos: quem ergue a catedral, quem tenta derrubá-la e por que a obra atravessa cinco décadas.
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I O Livro em 3 Minutos
Um construtor, um prior e cinquenta anos de obra
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Os Pilares da Terra, de Ken Follett, acompanha a construção da catedral de Kingsbridge, cidade inventada no sul da Inglaterra, entre 1123 e 1174. O centro da trama é Tom Builder (Tom, o construtor), pedreiro que sonha erguer uma catedral e anda pelas estradas com a mulher e os filhos atrás de trabalho num inverno de fome.
O pano de fundo é real. Em 1120, o Navio Branco afundou no canal da Mancha levando William Adelin, único filho legítimo do rei Henrique I. Sem herdeiro homem, a coroa ficou em disputa entre Estêvão, sobrinho do rei, e Matilde, a filha. Os ingleses chamaram a guerra civil que veio depois de Anarquia.
Tom encontra patrão em Philip, monge galês que assume ainda jovem o priorado de Kingsbridge. O priorado (mosteiro chefiado por um prior) tem uma igreja velha que pega fogo numa noite de inverno, e Philip decide trocá-la por uma catedral nova. Tom vira mestre de obras.
Contra a obra se armam dois homens. William Hamleigh, filho de um senhor de terras, é rejeitado no noivado por Aliena, filha do conde de Shiring, e passa o livro inteiro se vingando a cavalo. Waleran Bigod, bispo ambicioso, usa a catedral como moeda política e tenta levá-la para outra cidade.
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Os meninos pequenos chegaram cedo para o enforcamento.
Ken Follett, Os Pilares da Terra, 1989
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A frase abre o prólogo. O enforcado é um forasteiro acusado de roubar um cálice, e uma mulher chamada Ellen, grávida dele, lança uma maldição sobre os três homens que o condenaram. Quem lê só entende quem eram os três, e por que mentiram, perto das últimas cem páginas.
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O prólogo guarda a chave do livro. O forasteiro era Jack Shareburg, e o filho que Ellen carregava é Jack Jackson, que cresce na floresta e se torna o artista que redesenha a catedral. Os três acusadores eram Waleran Bigod, o pai de William e o prior anterior de Kingsbridge, pagos para calar uma testemunha. Tom é assassinado num ataque de William à feira da cidade; Jack assume a obra, se casa com Aliena depois de anos de separação, e a verdade sobre o enforcamento derruba Waleran. William termina na forca.
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A testemunha sabia de um crime maior. O naufrágio do Navio Branco não tinha sido acidente, e o forasteiro conhecia os mandantes. A guerra civil do pano de fundo e a maldição do prólogo nascem da mesma conspiração, e Follett amarra as duas pontas no desfecho.
O fim encosta em outro fato histórico: o assassinato de Thomas Becket, arcebispo da Cantuária, em 1170, dentro da catedral dele, e a penitência pública do rei Henrique II em 1174, com que o romance termina.
O que o livro entrega: cenas de obra detalhadas (arcos, abóbadas, vitrais), vilões sem meio-termo e uma saga de três gerações dentro de uma cidade que cresce em volta de um canteiro. O que ele cobra: paciência com descrições de pedra e estômago para violência explícita em várias passagens.
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II A Ficha
Quilos, centímetros e semanas de leitura
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Um livro de mil páginas pesa no ombro antes de pesar na leitura. Medir o exemplar define onde ele vai ser lido, e o lugar da leitura define se ela chega à última página.
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A ficha tem sete entradas. Os dados editoriais vêm da edição brasileira da Arqueiro, que publica Follett no Brasil. As medidas físicas são uma conta nossa, feita com papel de miolo comum de livro, e servem para conferir com a balança da sua casa.
| Lançamento original, no Reino Unido | 1989 | | Editora da edição brasileira | Arqueiro | | Páginas da edição brasileira | acima de mil | | Folhas de papel (cada folha tem duas páginas) | cerca de 500 | | Peso estimado do miolo, pela nossa conta | 1,1 kg a 1,3 kg | | Espessura estimada da lombada, pela nossa conta | 4 cm a 5 cm | | Leitura a 40 páginas por dia | cerca de 25 dias |
A conta do peso é direta. Mil páginas são quinhentas folhas. Uma folha no formato 16 x 23 cm tem cerca de 0,037 metro quadrado; com papel de 60 a 70 gramas por metro quadrado, o miolo passa de um quilo antes de a capa entrar na balança.
Na prática, o exemplar pesa como um pacote de arroz de um quilo com um livro de bolso por cima. Numa mochila, some no fundo. Numa bolsa de mão, puxa a alça e pede troca de ombro no trajeto.
A lombada é a medida que mais surpreende. Com quatro a cinco centímetros, ela não entra numa pasta fina de notebook, cuja divisória costuma ter três. Uma mochila comum leva o volume de pé, ao lado de uma garrafa.
O tempo também entra na ficha. Com quarenta páginas por dia, cerca de meia hora num ritmo tranquilo, o livro acaba em vinte e cinco dias. Quem lê só no transporte, vinte minutos na ida e vinte na volta, gasta o mesmo mês com o exemplar indo e voltando.
O desgaste pesa na decisão. Brochura grossa carregada todo dia sofre na lombada: o miolo abre nas páginas centrais, as folhas soltam em bloco e a capa dobra nos cantos. Um plástico de encapar, vendido em qualquer papelaria, estica a vida do exemplar por anos.
A versão digital apaga as medidas: o arquivo não pesa nada e cabe no celular. O que se perde é a noção física de avanço, a espessura que migra da mão direita para a esquerda, e esse marcador conta para quem encara mil páginas pela primeira vez.
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