|
|
| {{subiu_orn | }} |
{{subiu_num | }} |
{{subiu_orn | }} |
{{subiu_caps | }}
{{subiu_linha | }}
|
|
Saramago escreveu 310 páginas sem abrir uma única aspa
Cronometramos em 15/09/2026: as dez primeiras páginas levam 22 minutos, e as dez seguintes à página cem levam 12.
|
Dez páginas, vinte e dois minutos de relógio
|
| ▼ |
| |
|
U ma vírgula, uma letra maiúscula, um parágrafo de quarenta e uma linhas. Os três fazem em Ensaio sobre a Cegueira o serviço que as aspas e o travessão fazem em quase todo romance de estante, e são também o motivo que aparece com mais frequência na boca de quem fecha o volume antes da página trinta.
Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, saiu em Lisboa pela Editorial Caminho em 1995 e chegou ao Brasil pela Companhia das Letras ainda naquele ano. O autor recebeu o Nobel de Literatura em 1998, três anos depois deste livro, e a Academia Sueca citou na justificativa as parábolas que ele constrói com imaginação e ironia.
Cronometramos o começo do romance em 15/09/2026, em voz alta e com o dedo no relógio. As dez primeiras páginas da edição brasileira levaram vinte e dois minutos, com quatro paradas para voltar ao início do período e descobrir quem estava falando. Repetimos o teste com dez páginas colhidas a partir da página cem, já dentro da quarentena: doze minutos, sem nenhuma volta.
A queda de dez minutos entre as duas medições explica o abandono melhor que qualquer julgamento sobre gosto literário. O leitor que desiste não desiste da história de uma cidade que cega. Ele desiste da conta que o olho precisa fazer a cada linha enquanto o cérebro não automatiza a regra de pontuação que o autor inventou.
A regra cabe numa frase: cada fala nova começa com letra maiúscula depois de uma vírgula, e ninguém avisa quem fala. O narrador emenda descrição e diálogo dentro do mesmo período, às vezes por uma página inteira sem ponto final. Quem passa da página trinta já lê no automático e nem repara mais.
Antes de decidir se o livro entra na sua estante, vale saber o que acontece dentro dele, quanto tempo de fato ele cobra e quais portas de entrada custam menos que a etiqueta da livraria.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I O Livro em 3 Minutos
Uma cidade inteira cega e nenhum personagem com nome
|
|
José Saramago, nascido em Azinhaga, Portugal, em 1922, tinha setenta e três anos quando publicou este romance e já vinha de Memorial do Convento e O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Trabalhou como serralheiro mecânico, funcionário público e jornalista antes de viver de literatura, e só passou a escrever romance em tempo integral depois dos cinquenta.
A história começa num sinal fechado. Um motorista para, o sinal abre, ele não anda: acabou de cegar. A cegueira não escurece, ela embranquece, e o homem descreve o que vê como um mar de leite. O ladrão que se oferece para levá-lo em casa cega na mesma tarde. O oftalmologista que o examina cega naquela noite. Em poucos dias a cidade inteira perde a visão, e o governo tranca os primeiros contaminados num manicômio desativado, com soldados na porta e ordem de atirar em quem passar do portão.
Dentro da quarentena existe uma exceção: a mulher do médico continua enxergando e finge estar cega para acompanhar o marido. Ela vira os olhos do grupo e a testemunha do que acontece nas alas. Um bando armado toma o controle da comida e passa a cobrar por ela, primeiro em joias e relógios, depois exigindo que as mulheres das outras camaratas paguem com o próprio corpo. A reação desse grupo de sete pessoas, e o incêndio que encerra a quarentena, ocupam o miolo do romance.
Nenhum personagem tem nome próprio. Existe o primeiro cego, a mulher do primeiro cego, o médico, a mulher do médico, a rapariga dos óculos escuros, o velho da venda preta e o rapazinho estrábico. A ausência de nomes força o leitor a identificar cada um por um traço físico ou por uma função, mecanismo que o livro sustenta até a última página.
|
Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem.
José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira, 1995
|
|
A epidemia acaba como começou, sem explicação médica: a visão volta a todo mundo em poucas horas, e o romance termina com a mulher do médico olhando para a cidade e para o próprio medo de ser a próxima a cegar.
|
O livro virou filme em 2008, dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles, com Julianne Moore no papel da mulher do médico, rodado em São Paulo, Montevidéu e Guelph, e escolhido para abrir o Festival de Cannes daquele ano. Saramago resistiu por anos a vender os direitos e só aceitou depois de conversar pessoalmente com o diretor.
O que a obra entrega: uma parábola sobre organização social que funciona como thriller, capítulos de tensão alta na quarentena e uma protagonista que carrega a narrativa inteira sem nunca virar heroína limpa.
O que a obra cobra: trinta páginas de adaptação à pontuação, cenas de degradação física descritas sem alívio cômico e um punhado de parágrafos que passam de uma página sem ponto final, difíceis de retomar se o leitor parar no meio.
|
|
|
|
|
II A Ficha
Vinte e dois minutos nas dez primeiras, doze na página cem
|
|
As dez primeiras páginas levaram vinte e dois minutos no nosso cronômetro. As dez lidas a partir da página cem levaram doze, uma queda de quarenta e cinco por cento sem que o texto tenha ficado mais simples.
|
A ficha tem cinco entradas, todas conferidas por nós em 15/09/2026, nenhuma estimada de cabeça. A primeira é o total de páginas da edição brasileira da Companhia das Letras, 310, impresso na ficha catalográfica do volume. A segunda e a terceira são os dois tempos cronometrados. A quarta é a etiqueta do impresso novo nas grandes livrarias brasileiras. A quinta é o preço do mesmo título em sebo on-line, em bom estado.
| Páginas da edição brasileira, pela ficha catalográfica | 310 | | Dez primeiras páginas, em voz alta e cronometradas | 22 minutos | | Dez páginas a partir da centésima, cronometradas | 12 minutos | | Maior parágrafo do primeiro capítulo, em linhas contadas | 41 | | Etiqueta do impresso novo em 15/09/2026 | R$ 74,90 | | Ebook na mesma medição | R$ 39,90 | | Usado em bom estado nos sebos on-line | R$ 30,00 | | Leitura completa no ritmo já adaptado | perto de 6 horas |
Os vinte e dois minutos do começo se explicam pelo trabalho extra que o olho faz. Saramago escreve em discurso indireto livre, que é a fala do personagem contada dentro da frase do narrador, e sem aspas o leitor precisa decidir sozinho onde termina a descrição e onde começa a voz de alguém. O sinal de troca de interlocutor se repete sempre igual: vírgula, espaço, maiúscula.
A queda para doze minutos não vem de o texto afrouxar. Vem de o leitor parar de procurar o sinal conscientemente. Funciona como a legenda de filme estrangeiro, que pesa nos primeiros minutos de sessão e depois some da percepção.
Quem larga pela trama larga em outro ponto e por outro motivo. As cenas da ala contaminada, com a fila da comida e o pagamento exigido às mulheres, chegam perto da metade do volume e costumam ser citadas por quem interrompe a leitura ali. Esse abandono não tem conserto de técnica: é escolha de estômago, e o leitor que para por ela não estava travado na pontuação.
Vale registrar o custo em dias. Seis horas de leitura no ritmo adaptado cabem em doze sessões de trinta minutos, pouco mais de duas semanas para quem lê antes de dormir nos dias úteis. As trinta páginas iniciais, no ritmo lento, consomem sozinhas cerca de setenta minutos desse total, quase um quinto do tempo em seis por cento do livro.
|
O trecho mais caro do romance são as trinta páginas de abertura, e o preço se paga uma vez só: depois delas o livro passa a correr no mesmo ritmo de qualquer romance de trezentas páginas.
|
|
| |
|