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Sherlock Holmes em 12 contos para quem largou o romance longo
As Aventuras de Sherlock Holmes fecha cada caso em cerca de 20 páginas, e o formato curto devolve o hábito de terminar um livro.
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Os 12 casos de Sherlock Holmes numa só semana
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Um chapéu de feltro velho, um ganso de Natal, uma faixa pintada no pescoço de um homem ruivo. Os três objetos abrem e fecham casos inteiros em menos de 30 páginas, e cabem numa noite de leitura.
Todos estão em As Aventuras de Sherlock Holmes, o livro de Arthur Conan Doyle que reúne doze contos publicados na revista londrina The Strand Magazine entre julho de 1891 e junho de 1892. Cada conto começa com um visitante batendo à porta do número 221B da Baker Street e termina com o mistério resolvido, sem pendência para o mês seguinte.
O narrador é o doutor John Watson, amigo e colega de apartamento do detetive. Ele entra no caso junto com o leitor, faz as perguntas que o leitor faria e só entende a solução quando Holmes explica, na última cena.
O desenho foi pensado assim. Doyle já tinha lançado dois romances com o detetive, e nenhum vendeu bem. Na revista, ele apostou num personagem fixo com histórias fechadas: o leitor que perdesse uma edição continuava entendendo a próxima.
Para quem abandona romance longo na página 80, o formato resolve um problema concreto. O que derruba a leitura costuma ser a interrupção: três dias longe do livro e ninguém lembra quem era o primo do capitão. No conto fechado, a interrupção cai entre um caso e outro, e ninguém precisa lembrar de nada.
A proposta desta edição é medir. Doze contos, cada um lido do começo ao fim numa sentada, e uma conta simples no domingo: quantas histórias inteiras couberam na semana. Quem largou três romances no ano pode descobrir que termina quatro ou cinco casos em sete dias.
A leitura rende mais quando se sabe de onde vieram o detetive e a revista. A faixa I conta como um médico sem pacientes inventou o formato; a II reúne os dados do livro e dos doze casos; a III mostra como montar a semana de leitura.
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I O Livro em 3 Minutos
O consultório vazio da Upper Wimpole Street
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Arthur Conan Doyle, médico escocês nascido em Edimburgo em 1859, abriu em 1891 um consultório de oftalmologia na Upper Wimpole Street, em Londres. Os pacientes não apareceram. Segundo a autobiografia Memories and Adventures, de 1924, ele passava as manhãs sozinho na sala de espera e usava o tempo para escrever.
Sherlock Holmes já existia. Estreou em Um Estudo em Vermelho, publicado em 1887 no almanaque Beeton's Christmas Annual, e voltou em O Signo dos Quatro, de 1890, encomendado pela revista americana Lippincott's. Os dois romances tiveram recepção morna.
A virada veio com a The Strand Magazine, mensal ilustrada lançada em janeiro de 1891 pelo editor George Newnes. Doyle enviou dois contos ao editor Herbert Greenhough Smith, que pediu mais. Um Escândalo na Boêmia saiu em julho de 1891 e abriu a série.
A ideia de Doyle, contada na mesma autobiografia, era resolver um defeito do folhetim (o romance publicado em capítulos): quem perdia um número perdia o fio. Com um personagem fixo e uma trama inteira por edição, cada revista funcionava sozinha.
O ilustrador Sidney Paget deu rosto ao detetive. Foi ele quem desenhou Holmes magro, de perfil agudo, e mais tarde o boné de caçador com abas, o deerstalker (chapéu de caça de tecido xadrez), que nenhum conto descreve com esse nome.
O método de Holmes veio de um professor real. Joseph Bell, cirurgião da Universidade de Edimburgo, adivinhava a profissão e a origem de pacientes pela roupa, pelas mãos e pelo sotaque. Doyle foi assistente dele e reconheceu a dívida em cartas e na autobiografia.
O sucesso mudou a vida do médico. Em poucos meses, Doyle fechou o consultório e passou a viver da escrita. A Strand pagou mais a cada nova leva de contos, e as filas na porta das bancas de Londres no dia de lançamento da revista viraram parte da história do personagem.
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Você vê, mas não observa.
Sherlock Holmes, em Um Escândalo na Boêmia, de Arthur Conan Doyle, 1891
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A frase aparece quando Holmes pergunta a Watson quantos degraus levam à sala da Baker Street. Watson subiu a escada centenas de vezes e não sabe. Holmes sabe: são 17. O conto inteiro gira em torno do contrário, a única vez em que o detetive é passado para trás, pela cantora Irene Adler.
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O livro nasceu de uma sala de espera vazia e de uma revista que precisava de histórias que se sustentassem sozinhas, uma por mês.
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II A Ficha
Doze casos, uma sentada cada
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Cada conto tem começo, suspeito e solução dentro das mesmas 20 e poucas páginas, e nenhum depende do anterior para fazer sentido.
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A ficha junta os dados que ajudam a escolher a edição e a planejar a semana.
| Título original | The Adventures of Sherlock Holmes | | Contos na revista | julho de 1891 a junho de 1892 | | Livro reunido | Londres, outubro de 1892 | | Editora original | George Newnes | | Número de contos | 12 | | Tamanho médio | cerca de 20 páginas | | Narrador | John Watson, médico e amigo |
Os doze, na ordem do livro: Um Escândalo na Boêmia, A Liga dos Cabeças Vermelhas, Um Caso de Identidade, O Mistério do Vale Boscombe, As Cinco Sementes de Laranja, O Homem da Boca Torta, O Carbúnculo Azul, A Faixa Malhada, O Polegar do Engenheiro, O Nobre Solteirão, O Diadema de Berilos e As Faias Acobreadas.
Os títulos variam de tradução para tradução. O Carbúnculo Azul, por exemplo, aparece também como A Pedra Azul; carbúnculo é o nome antigo de uma pedra preciosa vermelha ou azulada, e no conto a gema está escondida no papo de um ganso de Natal.
Três contos servem de porta de entrada. A Liga dos Cabeças Vermelhas tem o golpe mais engenhoso: um penhorista ruivo é pago para copiar a enciclopédia durante horas, e o motivo está debaixo da loja dele. A Faixa Malhada, o preferido do próprio Doyle segundo lista que ele publicou na Strand em 1927, é o mais tenso.
O Carbúnculo Azul é o mais leve, passado na semana do Natal. O Homem da Boca Torta traz um jornalista que descobre ganhar mais pedindo esmola disfarçado do que escrevendo, e mostra Holmes resolvendo o caso sentado sobre almofadas, fumando a noite toda.
O desfecho de cada caso fica no próprio conto. Nenhuma pista é guardada para depois, e Watson, o narrador, costuma resumir a solução nas últimas duas páginas. Quem lê em ordem aleatória não perde nada.
A exceção é pequena: Irene Adler, do primeiro conto, volta a ser citada de passagem em casos posteriores como a mulher que venceu Holmes. Quem pular Um Escândalo na Boêmia perde a referência, não a trama.
As edições brasileiras em domínio público se multiplicaram, porque o texto em inglês está livre de direitos. Vale conferir três pontos no exemplar: se traz os doze contos (algumas coletâneas misturam casos de livros diferentes), se inclui as ilustrações de Sidney Paget e se o tradutor aparece com nome na ficha catalográfica. O preço de capa varia pouco entre as edições completas, e a versão digital costuma sair mais barata que a impressa.
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