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Steve Jobs deu 40 entrevistas sem pedir o texto

Walter Isaacson ouviu o biografado por dois anos, e a nota do autor mostra como separar acesso de recorte.

Exemplar de Steve Jobs aberto na introdução, ao lado de um gravador antigo e de um bloco de notas sobre uma mesa de madeira.

A nota do autor abre o livro de Isaacson

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Um gravador, um bloco de notas, uma sala de estar em Palo Alto. Os três bastaram para Walter Isaacson montar, entre 2009 e 2011, a biografia de Steve Jobs que chegou às livrarias em outubro de 2011.

O livro se chama apenas Steve Jobs. Saiu nos Estados Unidos pela editora Simon & Schuster e, no Brasil, pela Companhia das Letras, no mesmo ano. Nas primeiras semanas, ocupou o topo das listas de mais vendidos dos dois países.

O convite partiu do próprio Jobs. Em 2004, ele telefonou para Isaacson, então conhecido pelas biografias de Benjamin Franklin e, mais tarde, de Albert Einstein, e propôs que o jornalista contasse a vida dele.

Isaacson recusou. Achou cedo demais: Jobs tinha 49 anos e uma carreira em pleno andamento. A resposta mudou em 2009, quando Laurene Powell, mulher de Jobs, avisou que, se o livro fosse sair, precisava começar logo.

Daí vieram mais de quarenta conversas com o biografado, em casa, no carro e por telefone. Isaacson também ouviu familiares, sócios, ex-namoradas, rivais e funcionários da Apple, cerca de cem pessoas além dele.

Havia um detalhe raro no acordo. Jobs não pediu para ler o manuscrito, não exigiu cortes e não escolheu os capítulos. O único palpite que deu foi sobre a capa.

Quem lê biografias sabe que a estante mistura livros de natureza muito diferente. Há os escritos com o biografado sentado à mesa e há os montados com recortes de jornal, entrevistas antigas e depoimentos de segunda mão.

Na capa, os dois tipos parecem iguais. A diferença mora numa página que pouca gente abre: a introdução em que o autor conta como fez o livro.

A seção I resume o que a biografia de Isaacson conta e por que Jobs aceitou se expor. A II reúne a ficha e o que a nota do autor revela. A III mostra como usar essa página para escolher qualquer biografia.

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I  O Livro em 3 Minutos

Uma garagem, uma demissão e um retorno a Cupertino

Steve Jobs, biografia escrita por Walter Isaacson e lançada em 2011, segue a vida do fundador da Apple desde a adoção, em 1955, até os últimos meses de 2011. O livro tem cerca de 600 páginas e avança em ordem cronológica.

A primeira parte mostra o menino adotado por Paul e Clara Jobs na Califórnia. Isaacson usa as conversas com Jobs para mostrar como a adoção marcou o temperamento dele, sempre dividido entre se sentir escolhido e se sentir abandonado.

Depois vem a garagem da família em Los Altos, onde Jobs e Steve Wozniak montaram o Apple I em 1976. O livro deixa claro o papel de cada um: Wozniak projetava os circuitos, Jobs vendia a ideia e cuidava da aparência do produto.

O meio do livro trata da queda. Em 1985, após brigar com o presidente que ele mesmo havia contratado, John Sculley, Jobs foi afastado da Apple. Fundou a NeXT, empresa de computadores, e comprou a divisão de animação que virou a Pixar.

A volta acontece em 1997, quando a Apple compra a NeXT e Jobs retorna a Cupertino, sede da empresa. Os capítulos finais cobrem o iMac, o iPod, o iPhone e o iPad, e a doença que o acompanhou desde 2003.

Nesses capítulos aparece o método de trabalho que o livro mais descreve. Jobs juntava poucos produtos, cortava linhas inteiras e exigia que até a parte interna das máquinas fosse bonita, mesmo que nenhum cliente fosse abrir a caixa.

Isaacson mostra também o Jobs dos bastidores familiares: o casamento com Laurene em 1991, os quatro filhos e a irmã biológica, a escritora Mona Simpson, que ele só conheceu adulto.

O livro não poupa o biografado. Isaacson relata a recusa inicial de Jobs em reconhecer a filha Lisa, as broncas humilhantes em funcionários e o hábito de distorcer fatos para convencer a equipe, que colegas chamavam de campo de distorção da realidade.

Por que Jobs aceitou um retrato tão duro? Ele mesmo responde na introdução. Disse a Isaacson que queria que os filhos o conhecessem, porque nem sempre esteve presente para eles e queria que entendessem o porquê e o que ele fez.

Jobs também avisou que não havia nada escondido que não pudesse vir a público. Admitiu ter feito muitos atos dos quais não se orgulhava, e deixou Isaacson livre para escrever sobre todos eles.

O acesso total não comprou um livro favorável: Jobs abriu a casa e deixou a conclusão nas mãos do autor.

 
 

II  A Ficha

40 conversas, 100 fontes e nenhum corte

A introdução de Isaacson diz quem falou, quantas vezes e quem não leu antes.

Os dados principais da obra:

AutorWalter Isaacson
Primeira ediçãoSimon & Schuster, 2011
No Brasil2011, Companhia das Letras
Conversas com o biografadomais de 40, de 2009 a 2011
Outras fontes ouvidasmais de cem pessoas
Foto da capaAlbert Watson, 2006
Adaptaçãofilme de Danny Boyle, 2015

A página mais útil do livro é a introdução, chamada Como este livro foi feito. Nela Isaacson conta o convite de 2004, a recusa, a insistência de Laurene Powell e o formato das conversas.

O trecho central é curto. “Ele não pediu nenhum controle sobre o que eu escrevi, nem mesmo pediu para ler o texto antes da publicação”, escreveu Walter Isaacson em Steve Jobs, em 2011.

A frase separa este livro de uma biografia autorizada (aquela em que o biografado ou a família aprova o texto final). Jobs cooperou, mas não aprovou: o autor teve acesso sem dever revisão a ninguém.

O contraste aparece na prateleira de Jobs. Em 2005, a editora Wiley lançou iCon, de Jeffrey Young e William Simon, escrito sem a colaboração dele. A Apple reagiu tirando das suas lojas os livros da Wiley.

A biografia de Isaacson ganhou ainda o calendário a favor. A Simon & Schuster antecipou o lançamento para 24 de outubro de 2011, menos de três semanas após Jobs sair de cena, e a Amazon a listou como o livro mais vendido do ano nos Estados Unidos.

Livros assim não são ruins por definição. Mas dependem do que já saiu na imprensa e de quem aceita falar sem o biografado por perto, e tendem a repetir as histórias mais conhecidas.

O acesso de Isaacson também teve limite, e convém dizer. Em 2015, Tim Cook, sucessor de Jobs na Apple, disse ao jornalista Brent Schlender que o livro fazia um desserviço ao fundador, por dar peso demais às brigas e pouco ao lado afetuoso dele.

Schlender e Rick Tetzeli publicaram naquele ano Becoming Steve Jobs (A Formação de Steve Jobs, em tradução livre), com apoio da Apple. Quem quer o contraponto lê os dois e compara as versões dos mesmos episódios.

A comparação ensina a ler qualquer biografia. O mesmo fato, contado por quem teve acesso e por quem escreveu sem ouvir o biografado, ganha peso diferente conforme o autor escolhe o que entra no capítulo.

Nas edições brasileiras, procure a que traz o caderno de fotos. As imagens da garagem, do primeiro Macintosh e da família ajudam a situar as pessoas que aparecem centenas de páginas depois.

 

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III  Já Está no Seu Plano

A introdução que decide a compra

Steve Jobs já está no seu plano se você quer entender o fundador da Apple pelas palavras dele, gravadas por alguém que não precisava agradá-lo. Mas a lição do livro vale para qualquer biografia que você pegar numa livraria.

Antes de comprar, leia a nota do autor. Em poucos minutos ela responde se você tem nas mãos uma biografia com acesso ou uma compilação de recortes.

O exame em quatro passos:

1. Abra a introdução, o prefácio ou a nota do autor e procure se ele conversou com o biografado. Se a pessoa já não vive, procure com quem conversou: família, sócios, cartas, diários.

2. Procure números. Quantas entrevistas, com quantas pessoas, durante quanto tempo. Isaacson dá os dele já nas primeiras páginas.

3. Veja quem leu o texto antes da gráfica. Se o biografado ou a família aprovou o manuscrito, o livro é autorizado e pode ter perdido os trechos incômodos.

4. Folheie as notas no final. Fonte por capítulo, com data, indica pesquisa própria; fonte que repete reportagens antigas indica recorte.

O passo 3 explica a força do livro de Isaacson. Como Jobs não leu antes, as cenas duras ficaram, e são elas que fizeram leitores voltar ao livro anos depois.

O passo 4 tem uma pegadinha. Biografia sem nota de fonte não é necessariamente inventada, mas obriga o leitor a confiar no autor sem poder conferir de onde veio cada cena.

Quem lê em formato digital pode fazer o exame de graça. A amostra das lojas costuma incluir a introdução inteira, justamente a página que interessa.

O exame funciona até em biografia de figura histórica. Ninguém entrevistou Benjamin Franklin, mas a nota de Isaacson no livro sobre ele lista as cartas e os arquivos consultados, e é essa lista que mostra o tamanho da pesquisa.

Teste hoje: pegue duas biografias da sua estante e leia só a nota do autor de cada uma. Em 10 minutos, anote quantas entrevistas cada autor declara e se o biografado leu o texto antes. O livro com número declarado e sem aprovação prévia é o que vai trazer cenas que você ainda não conhece.

“Você confia mais numa biografia que o biografado leu antes ou numa que ele nunca viu?”

 
 
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Começar pelo dia 1 →

 
Quiz da edição

No acordo entre Isaacson e Jobs para a biografia, sobre qual ponto específico do livro Jobs deu um palpite?

AO título da obra
BOs capítulos finais
CA capa
DO número de páginas

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