|
|
|
{{saudacao | Bom te ver por aqui.}} {{saudacao_nome | }}
|
|
| {{subiu_orn | }} |
{{subiu_num | }} |
{{subiu_orn | }} |
{{subiu_caps | }}
{{subiu_linha | }}
|
|
Vigiar e Punir e a página que o ebook esconde
O clássico de Foucault é citado em trabalho e em prova, e parte das versões digitais troca a página impressa por um número de posição.
|
O livro de Foucault aberto no fichamento
|
| ▼ |
| |
|
Uma ficha de fichamento, um marca-texto amarelo, uma prova com consulta marcada para as oito da manhã. Os três pedem a mesma informação sobre Vigiar e Punir: em que página está a frase que o aluno quer citar.
Vigiar e Punir, de Michel Foucault, é presença fixa em bibliografia de Direito, Psicologia, Ciências Sociais, Educação e História no Brasil. O professor de criminologia pede o trecho com página, a banca de mestrado confere a referência e o colega de grupo quer achar o parágrafo em segundos.
A norma brasileira de citação cobra o número. A NBR 10520, da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), na versão de 2023, manda informar a página em toda citação direta, aquela em que o trecho vai copiado entre aspas.
O ebook complica a conta. No Kindle, o texto se reorganiza conforme o tamanho da letra e da tela, e o aparelho marca o ponto de leitura por posição (um número interno do arquivo, que não corresponde a nenhuma folha impressa). A frase que o professor achou numa página do livro de papel aparece no leitor digital como um número de quatro dígitos, sem relação com folha nenhuma.
Algumas versões digitais resolvem o problema. Parte dos ebooks traz a paginação da edição impressa embutida no arquivo, e o Kindle mostra o número da página real quando esse dado existe. Outras versões trazem só a posição.
A diferença não aparece na capa nem no título do anúncio. Duas versões do mesmo livro, com a mesma tradução, podem chegar ao aluno com recursos opostos, e a descoberta costuma acontecer na véspera da entrega do trabalho, com o arquivo já pago.
Antes da ficha técnica, vale entender por que um livro francês de 1975 sobre prisões virou leitura obrigatória em tanto curso brasileiro. A faixa I conta o que Foucault escreveu, parte por parte; a II compara página, posição e edição; a III mostra como testar a versão antes do clique.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I O Livro em 3 Minutos
Da praça pública à cela vigiada
|
|
Vigiar e Punir: nascimento da prisão, do filósofo francês Michel Foucault, saiu em Paris em 1975 pela editora Gallimard, com o título original Surveiller et punir (vigiar e punir, ao pé da letra). O livro pergunta por que, em menos de um século, a Europa trocou o castigo aplicado ao corpo em praça pública pela prisão com horário, regulamento e vigia.
A abertura é famosa entre estudantes. Foucault reproduz o relato da execução de Robert-François Damiens, condenado em Paris em 1757 por atacar o rei Luís XV com uma faca. O suplício (a pena aplicada ao corpo diante do público) durou horas e virou espetáculo na praça.
Poucas páginas adiante, o autor copia o regulamento de uma casa para jovens detentos de Paris, redigido por Léon Faucher em 1838. Ali não há plateia nem carrasco: há hora para acordar, rezar, trabalhar, comer e dormir. O contraste entre os dois documentos, separados por oito décadas, organiza o livro inteiro.
O livro tem quatro partes: Suplício, Punição, Disciplina e Prisão. A tese central diz que o poder moderno deixou de punir o corpo com dor e passou a moldá-lo com rotina, exame e observação constante.
|
Esses métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade, são o que podemos chamar as disciplinas.
Michel Foucault, Vigiar e Punir, 1975, tradução de Raquel Ramalhete
|
Disciplina, no vocabulário do livro, é o conjunto de técnicas que tornam o corpo dócil (obediente e útil de uma só vez). Foucault encontra essas técnicas no quartel, na escola, na fábrica e no hospital, e não só na cadeia: a fila, o horário, a prova e o boletim pertencem à mesma família.
O símbolo do livro é o panóptico, projeto do filósofo inglês Jeremy Bentham publicado em 1791: uma torre central cercada de celas iluminadas, de onde um vigia enxerga todos os presos sem ser visto. Como o preso nunca sabe se está sendo observado, passa a se comportar como se estivesse o tempo todo.
|
O panóptico funciona mesmo com a torre vazia. Foucault mostra que o efeito da vigilância mora na dúvida de quem é vigiado.
|
Daí vem a fama do livro fora da filosofia. Ele virou referência em debates sobre sistema prisional, escola, câmeras de segurança e monitoramento no trabalho, e aparece citado em teses de Direito, Psicologia, Educação e Comunicação.
No Brasil, a tradução de Raquel Ramalhete saiu pela Editora Vozes, de Petrópolis, em 1977, dois anos depois do original francês, e segue em catálogo em sucessivas edições. É a versão que a maioria das bibliografias indica, e por isso a paginação dela é a que o professor tem na cabeça quando corrige.
|
|
|
|
|
II A Ficha
Posição, página e a edição do professor
|
|
Em trabalho acadêmico, o ebook que vale é o que informa a página do livro impresso. Posição de leitor digital não entra em referência.
|
A ficha abaixo junta o que muda entre as versões de Vigiar e Punir que o estudante brasileiro encontra à venda. Cada linha responde a uma pergunta que aparece na hora de citar.
| Título original | Surveiller et punir, 1975 | | Editora francesa | Gallimard | | Tradução brasileira | Raquel Ramalhete | | Editora no Brasil | Vozes, desde 1977 | | Partes do livro | 4 | | Citação direta pela ABNT | exige página | | Kindle sem paginação | só posição |
Posição. É a unidade própria do Kindle, criada pela Amazon para marcar o ponto de leitura num texto que muda de forma a cada ajuste de fonte. Ela serve para voltar ao trecho no próprio aparelho, mas não identifica página nenhuma do livro de papel e não aparece nas normas de citação.
Página real. Quando a editora entrega à Amazon a correspondência com a edição impressa, o Kindle passa a mostrar o número da página do livro físico. O sinal aparece no menu Ir para, que ganha a opção Página, e na ficha do produto, onde a loja costuma indicar a paginação de origem.
EPUB. No formato EPUB 3 (o padrão aberto de livro digital usado por Kobo, Apple Books e Google Play Livros), a editora pode incluir uma lista das páginas do impresso dentro do arquivo. Nem toda editora preenche esse campo, e o aplicativo precisa suportar o recurso para exibir o número.
Qual impresso. A paginação embutida corresponde a uma edição específica. Se o ebook traz a página de uma edição mais antiga e o professor usa a mais recente, os números não batem. Na referência, o aluno declara a edição de onde tirou a página, com número e ano.
PDF. A cópia escaneada do livro de papel preserva a página, porque é a própria folha fotografada. A que circula em grupo de estudo, sem licença da editora, não é venda autorizada; a versão legal com página fixa continua sendo a impressa, ou o ebook com paginação real.
Preço. A versão mais barata tende a ser a que economiza em recursos do arquivo. Antes de comprar, abra a página do ebook de menor preço e a do mais caro e procure, nas duas fichas técnicas, a menção à paginação.
Quatro perfis resumem a escolha. Impresso da Vozes: página garantida, igual à da bibliografia. Ebook com página real da mesma edição: portátil e citável. Ebook com página real de outra edição: citável, desde que a referência declare a edição. Ebook só com posição: bom para ler, ruim para citar.
|
| |
|